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Pesquisa: distúrbios da infância
O Cepia pretende marcar sua atuação de estudo e prática da psicanálise com o desenvolvimento de pesquisas em âmbito regional, que possam nortear o trabalho dos profissionais envolvidos e responder à comunidade com informações que possam, em um futuro breve, serem aplicadas com fins preventivos e terapêuticos.
A Primeira Etapa desta pesquisa que pretende estender-se para os diversos distúrbios da infância e adolescência fará um levantamento sobre a questão do autismo em Goiânia.
Estudos bibliográficos indicam que o autismo foi descrito primeiramente por Bleuler em 1911, como um tipo de esquizofrenia, no campo das psicoses. Bleuler o definiu como uma "dissociação psiquica", que se referia ao predominio da emoção sobre a percepção da realidade, Como "autismo infantil precoce" o termo foi cunhado pela primeira vez, em 1943 pelo psiquiatra Leo Kariner, que fez uma descrição detalhada de uma série de comportamentos do autismo a partir de um estudo com onze crianças com incapacidade de desenvolver relações afetivas e "tendência ao retraimento". Até então patologias com estas caracteristicas eram classificadas como retardo mental.
O estudo de Kanner apontou corno caracteristica fundante do autismo o desejo de imutabilidade, definido pelo autor como uma conduta "..regida por uma obsessão ansiosa de permanência que ninguém pode romper, excetuando‑se a própria criança e apenas em raras oportunidades". Entre outras caracteristicas apontadas por seu estudo estão a incapacidade dos afetados para assumir postura antecipatória, o uso de uma linguagem onde os sentidos das palavras são rigidos e estereotipados e as experiências externas vistas como ameaçadoras. Qualquer tentativa de alteração de ambiente que lhe é familiar, pode ser de extrema intensidade pafa a criança autista, mesmo quando seu comportamento tipico habitual não permita antecipar urna reação nesta direção. No entanto, Kanner ainda situava o autismo como um tipo de esquizofrenia. Só em 1956, o Autismo é distanciado da esquizofrenia e passa a ser visto como um "problema psicológico".
Vários outros pesquisadores se interessaram pela síndrome, descrevendo e classificando quadros autistas, mas muito pouca inovação foi descrita além das primeiras informações catalogadas por Kanner. Atualmente, a definição utilizada está na 10 ° Classificação Internacional de Doenças Mentais - CID-10 (Anexo 1 - 1993), e enquadra o autismo na categoria dos "Transtornos Invasivos do Desenvolvimento". O fenômeno é descrito por anormalidades qualitativas na interação social recíproca e nos padrões de comunicação, e por repertório de interesses e atividades restritas, repetitivas e estereotipadas, conforme havia sido definida por Gilberg, em 1990.
Segundo os critérios do CID-10, para ser caracterizada como lesão marcante na interação social recíproca - categoria "A", ela deverá ser manifestada por pelo menos três entre os próximos cinco itens: 1. dificuldade em usar adequadamente o contato ocular, expressão facial, gestos e postura corporal para lidar com a interação social. 2. dificuldade no desenvolvimento de relações de companheirismo, 3. raramente procura conforto ou afeição em outras pessoas em tempos de tensão ou ansiedade, e/ou oferece conforto ou afeição a outras pessoas que apresentem ansiedade ou infelicidade. 4. ausência de compartilhamento de satisfação com relação a ter prazer com a felicidade de outras pessoas e/ou de procura espontânea em compartilhar suas próprias satisfações através de envolvimento com outras pessoas. 5. falta de reciprocidade social e emocional.
Para a categoria "B", como lesão marcante na comunicação: 1. ausência de uso social de quaisquer habilidades de linguagem existentes. 2. diminuição de ações imaginativas e de imitação social. 3. pouca sincronia e ausência de reciprocidade em diálogos. 4. pouca flexibilidade na expressão de linguagem e relativa falta de criatividade e imaginação em processos mentais. 5, ausência de resposta emocional a ações verbais e não-verbais de outras pessoas. 6. pouca utilização das variações na cadência ou ênfase para refletir a modulação comunicativa. 7. ausência de gestos para enfatizar ou facilitar a compreensão na comunicação oral.
Categoria "C": padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades, manifestados por pelo menos dois dos próximos seis itens: 1. obsessão por padrões estereotipados e restritos de interesse. 2. apego específico a objetos incomuns. 3. fidelidade aparentemente compulsiva a rotinas ou rituais não funcionais específicos. 4. hábitos motores estereotipados e repetitivos. 5. obsessão por elementos não funcionais ou objetos parciais do material de recreação. 6. ansiedade com relação a mudanças em pequenos detalhes não funcionais do ambiente.
Categoria "D": anormalidades de desenvolvimento devem ter sido notadas nos primeiros três anos para que o diagnóstico seja feito.
A ABORDAGEM PSICANALÍTICA
Freud defende, em 1914, no texto "Sobre o Narcisismo: Uma Introdução", o auto-erotismo como um estado inicial da libido. Ele considera que os instintos autoeróticos se encontram desde o início no indivíduo e que torna-se necessário uma nova ação psíquica, o narcisismo, para a mudança do estágio auto-erótico. No caso do autismo, haveria uma falha na estruturação psíquica e a não instauração do circuito pulsional. Ou seja, o autista não se constitui como um sujeito desejante, não atinge a ordem pulsional mantendo-se nos limites da necessidade. Dito de outro modo, não há desejo no autismo porque não há falta.
O Autismo Infantil derivaria da não instauração do circuito pulsional, a criança permanecendo no auto-erotismo. Porque este movimento não seria feito pela criança tem sido objeto de estudo da psicanálise. Vários pesquisadores se debruçaram sobre a temática e os estudos que trabalham com o paradigma psicanalítico chamam a atenção para o fato de que as crianças vítimas da síndrorne, na maioria das vezes, não encontraram um abrigo no desejo dos pais, isto é, elas sofreram de uma falta de um lugar singular junto à familia. Esta falta seria responsável pela impossibilidade da criança constituir-se integralmente em um corpo unificado. Falta à criança uma imagem corporal, um corpo representado ern sua totalidade e uma autonomia em relação ao corpo da mãe.
Não haveria um corpo no sentido da representação de uma imagem corporal unificada. Para a psicanálise, a constituição dessa imagem pressupõe, e é possibilitada, pelo olhar do outro - seja a partir de sua presença no imaginário da mãe.
Lacan cunhou o termo alienação para descrever o processo ligado à primeira operação essencial em que se funda o sujeito. A alienação condena o sujeito a se constituir nessa divisão entre o ser (o sujeito) e o sentido (o outro), tendo na interseçâo desses dois campos o não-senso. E ele situa o "estádio do espelho" como fundante para a identificação da criança como sujeito, o que se daria entre 6 e 18 meses de idade. O "estádio do espelho" acarretaria uma transformação no bebê, quando ele se perceberia como uma imagem integrada, correspondendo à ação psíquica que Freud denomina de Narcisismo, quando o indivíduo se percebe inteiro.
A impossibilidade de o autista entrar no "estádio do espelho", ou no olhar materno (ou que exerce a função materna), impede a instalação da relação simbólica fundamental, a presença-ausência materna, devido uma falha da própria presença original deste Outro. Estaria aí a origem do fracasso da constituição da imagem do corpo e da constituição do eu. Para Lacan este fracasso teria origem no imaginário da mãe, de onde as crianças retiraram sua estrutura subjetiva.
Para Lacan, é precisamente a ausência dessa ilusão antecipatória por parte dos pais que parece impedir a construção de uma história para a criança autista e sua constituição como sujeito. Poderiamos dizer que esta criança não encontra no Outro, alguém que lhe possa fornecer os significantes necessários à sua subjetivação; é portanto uma criança que sofre da falta de lugar no desejo do Outro. A hipótese levantada por Lacan nos abre a possibilidade de um trabalho preventivo e fundamenta nosso estímulo para esta pesquisa, que em uma segunda etapa pretende atuar não só no tratamento como na prevenção desta síndrome.
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