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Notícias

Reflexos da infância na vida adulta
18/02/2009

Durante décadas, estudamos através da Psicanálise de Freud os traumas que marcam nossas vidas e que, quase sempre, estão ligados às interpretações fantasiosas e mal-elaboradas durante nosso período infantil. Não é raro observarmos, em novelas, os personagens maldosos ou vilões que passaram por dificuldades não compreendidas durante a infância. Personagens estes que despertam, no telespectador, a sua criança interior. O desamor construído durante a infância da criança por si mesma, quase sempre, é responsável pela conduta que é repetida em sua fase adulta. Apesar dos exageros que se percebem nas novelas, não podemos negar que se tratam de fatos reais que se apresentam diariamente na vida de todos nós.

Todo ser humano carrega, dentro de si, um sentimento, muitas vezes, inconsciente de rejeição. Sabemos que este sentimento de rejeição advém de arquétipos que transitam em nosso inconsciente coletivo, onde nos rebelamos contra o Pai (Deus) e pelo livre arbítrio por Ele nos concedido para procurarmos o nosso próprio crescimento e retorno à sua morada. Sentimo-nos rejeitados por Ele, tal como filho que se rebela contra o pai e sai de casa para aproveitar a vida e, quando os apertos começam, sente que fora rejeitado pelo pai, quando, na verdade, nós é que o rejeitamos. Quantos de nós não saímos de casa por não compreendermos que, para se viver bem, é necessário disciplina e maturidade psicológica. Esse fato foi exemplificado pelo nosso Irmão Maior na Parábola do Filho Pródigo em Lucas 15;11-32.

Quando criança, somos, muitas vezes, tolhidos do ato de pensar e escutamos de nossos pais e/ou mestres: "Você pensa demais." Investe-se muito em fazer com que acreditemos em tudo o que lemos nos jornais, livros e nas revistas e tudo o que nosso governo nos diz. Afinal, se não pensamos sozinhos, somos alvos fáceis do controle e da manipulação. É terrível dizer uma coisa dessas a quem quer que seja. Para quem estiver no controle, sejam pais, empregadores, seja o nosso governo, pode parecer uma ameaça o fato de alguém pensar independentemente.

A reação mais comum a todos os meus textos não é que eu tenha dito nada especialmente novo. É que eu escrevo sobre o tipo de coisa que um monte de gente vem pensando o tempo todo, mas não tem coragem de abordar. Eles descobriram que a constatação de que não estão sozinhos - não estão loucos - é um grande conforto numa cultura que desencoraja o pensamento e, muitas vezes, a franqueza. Com efeito, é preciso coragem para ser diferente, para a pessoa atrever-se a ser ela mesma. Se escolhermos pensar por nós mesmos, devemos estar rimes, prevendo a reação. Sou, muitas vezes, confundido com alguém que sempre está descontente, excêntrico ou rebelde.
Quando desenvolvemos o ato de aprender a pensar, reconstruímos nossa infância através de novos conceitos que não anulam nem se rebelam quanto àqueles que construímos durante nossa infância que se misturaram aos impostos pelos nossos pais e companheiros de infância; mas essa senda para a liberdade é obstruída por mitos sociais, um dos quais nos faz acreditar que, depois do fim da nossa adolescência, não podemos mudar grande coisa. Na realidade, nós temos condições de mudar e crescer durante todo o curso das nossas existências - até nos aspectos mais sutis. Mas é uma escolha.
Escrevi num texto intitulado: Aprendendo a pensar na Psicoterapia. Pois acredito que o ato de aprender a pensar nos liberta de nosso passado e nos proporciona a oportunidade para o autoamor e autorrespeito. Para aprender a pensar, são necessários disposição e interesse para o despertamento para a vida intelectual; motivo pelo qual busco mostrar aos meus pacientes que a compreensão intelectual de nossos "problemas" é um caminho para a libertação.
Por exemplo, o complexo de Édipo. Um adulto com um complexo de Édipo não resolvido não pode ser curado se antes não souber intelectualmente o que venha ser complexo de Édipo.
Para tornarmo-nos adultos sadios temos de resolver antes o dilema edípico de abandonar os nossos sentimentos sexuais com relação aos nossos pais. Se menino, o pai é visto como um concorrente pela atenção da mãe. Se menina, desejar o pai como objeto sexual ou de amor significa competir com a mãe. As crianças experimentam, pela primeira vez em suas vidas, as ansiedades da perda. Elas são forçadas a abrir mão de algo importante para elas e que não podem ter. Pela minha experiência, pessoas que não resolvem adequadamente o complexo de Édipo, têm consequentemente dificuldade das mais graves, às vezes, insuperável em abrir mão de qualquer coisa, pois nunca fizeram essa primeira escolha. São pessoas possessivas. Apegadas excessivamente à matéria. Normalmente são infelizes em suas relações afetivas e buscam exageradamente ajudar o próximo para obter a sua atenção com intuito de suprir aquilo que elas não foram capazes de conquistar: o amor por si mesma. É, portanto, essencial que elas aceitam o fato de não lhes ser possível possuir o pai ou a mãe na forma que têm fantasiado. Fica difícil progredir quando a pessoa não pode renunciar a nada.
Problema similar apresenta-se ao tratar de masoquistas. A raiz da neurose deles é o desejo de serem infelizes. E, para melhorar, eles têm de aprender maneiras de serem felizes. Esse é o esquema para o autoderrotismo na Psicoterapia, com todos aqueles que se prendem com força a algo que simplesmente não querem ou não conseguem abandonar no momento, embora esteja fazendo-os infelizes. É como se eles tivessem incorporado, neles, um motivo para o fracasso. Abrir mão de algo implica fazer uma mudança. Para mudar, é necessário abrir mão de algo. Quem se encontra aprisionado ao passado não quer ou não consegue abrir mão dele para viver o presente e construir um futuro feliz. Prefere viver a síndrome do "vitimismo" e buscar nos outros o que ele já tem em si mesmo: autopiedade e autocompaixão.
O simplismo é ineficiente e é a saída preguiçosa. O simplista busca soluções mágicas para seus problemas psicoafetivos. Como tomar uma pílula para resolver seu problema de infelicidade que o levou a infidelidade que, por sua vez, desencadeou um processo depressivo grave. O simplismo não é só um meio de nutrir a ilusão de que existem respostas fáceis; é a via certa para a pessoa tornar-se rígida e estagnada. Aquele que se propõe mudar através da Psicoterapia está disposto a sair do pensamento simplista para uma reelaboração, muitas vezes, dolorosa, para o verdadeiro encontro com a verdade, pois "busquei a verdade e ela vos libertará".
Tanto como psicoterapeuta, quanto como escritor, eu tenho trabalhado para ajudar pessoas a viver suas vidas mais eficientemente - não necessariamente a estarem felizes ou à vontade o tempo todo, mas sim a aprenderem o máximo possível em qualquer situação que se apresentar e tirarem o maior proveito da vida.

Ouvi certa vez: "Quando uma mente amplia-se verdadeiramente, jamais volta às suas dimensões anteriores." Ampliar não significa negar ou ignorar a infância, mas fazer do aprendizado infantil um alicerce para o aprimoramento e despertamento do ser psiquicamente maduro que habita em cada um de nós: essência divina.



José Geraldo Rabelo é psicoterapeuta, psicólogo, filósofo, escritor e palestrante



 
 
 
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