Falar sobre os primeiros passos pode nos dar prazer. Os primeiros passos estão associados a um período de nossas vidas que é absolutamente decisivo, a infância. É quando se joga o jogo de vida ou morte, um terrível e, no mais das vezes, invisível combate entre as forças de Eros e Tânatos. O bebê vai ou não sobreviver? Vai ou não escapar de insidiosas moléstias, escapar da passagem de um meio líquido para o meio aéreo, onde lhe custa respirar, quando respirar queima como brasa? O bebê vai escapar das forças de destruição que operam silenciosamente dentro de si? Vai escapar dos diversos contágios, das diversas contaminações que implica o simples ato de viver? Vai escapar das diversas imperícias, dos cuidados iniciais, da infecção hospitalar, do excesso de carinho, vai escapar até mesmo de uma mãe insuficiente, ou suficiente demais? O fato é que aqui estamos, e se estamos, escapamos. Podemos, então, comemorar, lembrar juntos, celebrar.
Os primeiros passos são sempre de ordem mítica. Quem pode garantir quais são os primeiríssimos passos de alguém, de um bebê, de um adulto no exercício de uma nova profissão, de um jovem que se encontra pela primeira vez com uma namorada? Onde situar precisamente este momento? Será que o primeiro passo não é, por sua vez, o resultado de uma longa cadeia, de uma longa série de acontecimentos que culminaram exatamente nele, no primeiro passo, tal como uma banda de Möebius, tornando indistintos o começo e o fim, o dentro e o fora, o íntimo e o êxtimo, a semente e a árvore, tal como na dialética de Hegel? É assim que chegamos à idéia de que a criança é o pai do homem? Se for assim, então chegamos a um ponto culminante, posto desde o início: o jovem e o velho analista têm algo em comum, se são analistas: um não saber, uma abertura que leva ao novo, à criação. Podemos chamar esse ponto de douta ignorância, e nos lembramos de Sócrates, chamado de "o primeiro analista", por Lacan. Mais uma vez, os extremos se tocam.
Quem dá os primeiros passos? Certamente que o chamado analisante. Certamente que o chamado analista. Por mera convenção, podemos fixar um primeiro passo no menino que se descobre portando um pênis, que se movimenta à revelia, fica duro, coça, corpo estranho. O que é isso? Um protótipo daquilo que Freud chamaria de o "estranho familiar", a inquietante estranheza de tão familiar e ao mesmo tempo incontrolável, indicando a potência que vem de um Outro lugar, de uma Outra cena, sobre a qual não se tem comando algum? Resta falar, dirigir a palavra a alguém. "Mãe, o que é isso?", e notar, como num raio, o embaraço. O encontra com o sexo é sempre faltoso, como todos os encontros. É sempre traumático, o sexo. Já está na etimologia, sexo é corte, sexualidade é o que vem no lugar desse corte, dessa falta. Alguma coisa que vem no lugar de coisa alguma é metáfora. Logo, sexo, sexualidade, é metáfora, o que nos institui no campo da linguagem, seres falantes, filhos do simbólico, com quem abrimos uma conta, uma dívida impagável, até porque não há quem a receba. Dinheiro na mão, vendaval, para ninguém. Um olho cego vagueia procurando por um, como na letra de Zé Ramalho, na letra de Sófocles com seu Édipo em Colona, os olhos arrancados, como o coelho cego na estrada, puro olhar para nada. O olhar como causa de desejo, ou como mais-de-gozar, pode não ter nada a ver com o olho. Nada a ver. Ela me olha, me come com os olhos. O analista suporta a demanda, sem atendê-la. O divã pode servir de instrumento para amansar a pulsão escópica, o gozo de ver, o tesão do olhar, que se faz excessivo e aprisiona o sujeito na negação da castração. A visão é o sentido que mais elude a castração.No consultório, há objetos que se dão a ver. Quadros, esculturas. Queres ver, diz o pintor, então toma. Pode ser o teu sin-toma, o que tu ganhaste do simbólico, e só pelo simbólico pode ser minimamente alterado.
Como não haver um testemunho para o não-senso, para a falta de sentido, que, por acaso, é minha vida? Aí é que entra o analista. Quando não tiveres nada a dizer, o teu silêncio é já uma resposta. O silêncio é o fundo de onde brotam os ruídos, o som e a fúria, as palavras, as significações. É preciso respeitar a dignidade do silêncio. Mesmo que não tenhas nada a dizer, estás ali, presença-ausente, ausência-presente, para dignificar o silêncio que abrirá, talvez, a porta para outras significações, que não aquelas repetitivas da neurose, do gozo sofrido do sintoma, do aperreio da inibição, do sufoco da angústia. Novas significações, que brotam ali, num entre-lugar, o lugar do sujeito, entendido como função, que resulta de uma intersubjetividade não mais imaginária, dualista, mas triádica, para além da lógica binária do narcisismo, a estreita lógica do ou-isso-ou-aquilo, passando para a lógica ternária, que leva em conta o terceiro excluído, nem-isso-nem-aquilo, a lógica do ao menos três do Édipo, a lógica da criatividade, que inclui a castração e a morte. E-isso-e-aquilo. O entre-lugar do sujeito como função da intersubjetividade simbólica.
Então, o que nos garante, o que nos dá garantia de podermos falar nos primeiros passos?
Só pode ser a suposição, a mera suposição, de que estamos nos entendendo, estamos nos entendendo quando supomos que a tais palavras correspondem tais significados assumidos por todos. E quem nos garante isso, isso, que é de ordem extraordinariamente prática, a suposição da vida de todos os dias, o tecido de que é feito nosso quotidiano, o que audaciosamente chamamos de senso comum? Só pode ser o simbólico. Estamos, então, no ponto de partida para os primeiros passos. São João, que era escritor, dizia que "no princípio era o Verbo", e depois aprendemos que o Verbo se fez carne. E até mesmo se promete a ressurreição da carne, ultrapassada a morte. Há uma verdade psicológica na sublimação religiosa das pulsões, a sublimação pela fé? A religião não diz a palavra final sobre a fé. Sem fé, não há vida. Também a morte, ela também, é matéria de fé, no dizer de Lacan. Se não tivéssemos fé, se não acreditássemos que vamos morrer, a vida seria insuportável, Lacan chegou a dizer. Mas, será que a Morte, há? Santo Agostinho já sabia que não há palavras para dizer desse estado preciso em que alguém morre. A morte, não se diz, inomeável. Freud disse que no inconsciente não há inscrição da morte. E, no entanto, é companheira diária, sem descanso, do analista, que tenta o impossível de dizê-la, de nomeá-la, como Antígona, que aceitou a morte para que seu irmão Polinice fosse enterrado, e escapasse da segunda morte, da morte sem significação. O analista é aquele que, pelo seu ato simbólico , a interpretação, está engajado, como Antígona, na luta, no combate, na agonia contra a morte não significada. Sem fé no inconsciente, o analista não pode operar. Fé, e não apenas a mera crença. Por sua vez, Goethe pensou que "no princípio era a Ação". Podemos aprender com eles, que lidavam com palavras, que o verbo é ação, a palavra põe em movimento, transmuta, transforma, altera, impede que o idêntico seja sempre idêntico a si mesmo. Um lingüista contemporâneo, Austin, também nos ensinou que dizer é fazer. E podemos dizer, com Lacan, que no princípio há a transferência. Sem transferência, não há análise. Mas é preciso dizer também que não há análise, se a transferência é maciça, transformando-se em resistência, em tudo aquilo que impede a análise pela via da associação livre, a única regra. A experiência analítica nos diz que a transferência é ao mesmo tempo o motor e o obstáculo de uma análise. Então, é preciso pensar como um dialeta, valorizar a lógica dialética, se queremos entender a transferência, um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, no dizer de Lacan. A lógica dialética abre para um pensamento que aceita o paradoxo, o conflito e a contradição, a equivocação, a polissemia e a ambigüidade das palavras, matéria de que são feitos os sonhos, as fantasias, os chistes, os sintomas, o conjunto das formações do inconsciente.
Podemos, então, estar de acordo quanto ao primeiro passo, a palavra? E se falamos em clínica psicanalítica, falamos em inconsciente. O que é isso, inconsciente? Ele é incognoscível. É bom lembrar, porque com freqüência nos esquecemos disso, com a pletora de definições que acabam por encobrir o fato extraordinariamente simples - e complexo - que é o sal da invenção freudiana: o inconsciente é acrônico, não se deixa reger pelo tempo cronológico, e impõe um limite à pretensão da consciência de tudo saber; o inconsciente é um conceito freudiano explicitado na fórmula "algo de não-realizado", isto é, nem ser, nem não ser, e ampliado por Lacan com a introdução do princípio de alteridade ("o inconsciente é o discurso do Outro", e "se estrutura como uma linguagem"; não se pode conhecer o inconsciente diretamente; ele só é acessível por seus efeitos. Trata-se de um saber, que se dá na experiência da clínica psicanalítica, e que é manifestado, por via de transferência, do lado do analisante, como um "saber que não se sabe", mas produz efeitos.Podemos, ainda, dar um salto: partir do primeiro passo, a palavra, a linguagem, a ordem simbólica, e concluir, com Lacan: se não houvesse linguagem, não haveria inconsciente, ou, a linguagem é condição para o inconsciente, e não o contrário. Com Lacan, deixa-se de lado a concepção romântica de um inconsciente trevoso, lugar de potências obscuras. O inconsciente ganha em positividade, estruturando-se como uma linguagem, e feito de significantes. A prova disso: o primeiro passo de Freud no caminho próprio da psicanálise: a escrita de uma obra seminal: "A interpretação de sonhos". Depois de Lacan, ficou claro que nela, de ponta a ponta, se trata do significante. Mas não apenas do significante, também da significância, pois constatamos que o homem "não pode não significar".
Só existe uma justificativa ética para a intervenção do psicanalista: o sofrimento. Podemos, então, admitir que o sofrimento psíquico é o primeiro passo de alguém que busca a ajuda de um analista. Primeiro passo sofrido, demorado, cheio de negaças, adiamentos, postergações. Coisa incrível, não caminhamos em linha reta (será que a linha reta existe?, não será apenas uma abstração, um ideal?), quando lidamos com o sofrimento, ainda mais se o sofrimento é psíquico. Há uma longa curva, que se dá no tempo de procurar efetivamente uma ajuda, para além da auto-ajuda (outro primeiro passo). Por que há tantos livros de auto-ajuda, enchendo a lista dos bestsellers? É mais um primeiro passo, o primeiro passo da ilusão de onipotência, que leva o sujeito a pensar que não precisa de ninguém, que resolve tudo sozinho, no máximo lendo umas coisinhas que supõe que pode selecionar, afinal ninguém é capaz de fazer a sua cabeça, sua cabeça já está feita (é aí que mora o perigo). O livrinho de auto-ajuda ainda tem a vantagem de ser baratinho, o sujeito não vai gastar quase nada, não vai dar dinheiro para o analista, esse "dentista" que só se procura em último caso, quando o nervo está exposto. Não importa, alguma coisa já está mexendo dentro do sujeito, e ele não sabe o que é. A auto-ajuda, como primeiro passo, pode ser um simulacro de uma auto-análise. Não há de que se envergonhar, todos dão esse primeiro passo, o da auto-análise. Freud também. Foi preciso um tempo para que descobrisse que o caminho da introspecção é dominado pela ilusão da consciência. Foi então que procurou ajuda em Breuer, depois em Fliess, seus primeiros analistas.Levou um tempo para que descobrisse que a auto-análise é impossível, e, no entanto, paradoxalmente, só se trata de auto-análise numa psicanálise, mas uma auto-análise que se faz com o Outro, representado pelo analista.
Os primeiros passos na clínica psicanalítica indicam uma introdução: a introdução do inconsciente. Como se faz isso? Do lado do analista, em primeiro lugar, uma escuta, que, tem a particularidade de comprometer o sujeito com aquilo que ele diz, com o seu dito, para que ele possa manter uma distância entre o dito e o dizer. Como se faz isso? Criando-se as condições em que possa vigorar a única regra fundamental da psicanálise, a regra da associação livre, em que se pede que o sujeito fale sem censura. O analista pode dar algum tempo ao analisante, até que ele perceba que não está numa relação convencional com o Outro, de que a conversa ali não é a conversa de todos os dias, a conversa informal que não produz efeito algum. Ali, o sujeito tem a oportunidade de descobrir que está implicado, responsavelmente, no seu próprio sofrimento, ainda que ele, o sofrimento, esteja determinado pelo inconsciente. É nesse lugar paradoxal que vige o sujeito do inconsciente, o lugar especial entre fato e ficção, em que alguém se pensa responsável por tudo aquilo que fizeram dele, sem escapatória. É a transição da questão psicológica para a dimensão ética. Introduzir o sujeito na dimensão do inconsciente é fazer com que ele se questione eticamente.
A análise não é uma situação qualquer, não é uma situação comum, um ponto de encontro de dois indivíduos em que meramente um fala e outro ouve. A análise é um dispositivo. Algo criado artificialmente. Algo que produz efeitos, que muda a posição subjetiva de alguém, por meio do artifício do simbólico. Não se trata de um dado da natureza, nem simplesmente um artefato da cultura, mas algo que se dá nesse entre-lugar entre natureza e cultura, o artifício da ordem simbólica. Podemos constatar que a psicanálise não é medicina, embora tenha nascido no meio médico, do qual se afastou, pela invenção freudiana, numa série de rupturas. Foi por rupturas, de ordem prática, com finalidades terapêuticas, que Freud abandonou sucessivamente o exercício do olhar médico, que pretendida localizar no corpo um lugar que explicasse o sofrimento psíquico, abandonou a pretensão de curar, o uso da hipnose, que escondia a resistência, o uso da catarse, com seus efeitos de sugestão e de sedução, até chegar à regra da associação livre, em que a palavra é restituída ao sofredor. Foi também com sucessivas rupturas que Freud se afastou de uma simples posição pedagógica, da pretensão de uma educação por meio de conselhos, admoestações, esclarecimentos, e orientações, que pretendessem "retificar", corrigir os sintomas, como se eles tivessem apenas a dimensão do erro, sem que sua verdade fosse escutada. Foi também por sucessivas rupturas que Freud abandonou a ilusão do consciencialismo, que presidiu a séculos de elaboração filosófica, e para quem toda a vida psíquica se reduziria à vida consciente. Não é medicina, não é pedagogia, não é sugestão, não é filosofia, não é redutível à relação senhor-escravo, não é o lugar dos conflitos entre governantes e governados. A psicanálise, no dizer de Lacan, é uma nova relação social, algo que jamais existira antes de Freud, a não ser por breves momentos, marcados, pontuados na cultura, na história, como, por exemplo, a interpretação que Sócrates dá no "Banquete" de Platão, e que guarda a especificidade da interpretação psicanalítica, como ato simbólico, como interpretação do desejo inconsciente, no sentido da decifração.
Clinicar vem do radical grego "klinein", que significa deitar, inclinar, dobrar. É bem verdade que, pelo uso do divã, o analista procura "deitar" as questões do analisante, questões que se apresentam muito empinadas, desde os primeiros momentos do tratamento, denominados por Freud de "período de ensaio", e de "entrevistas preliminares", por Lacan. Isso não quer dizer que se peça ao entrevistado que logo se deite. Há um tempo para isso, que, na falta de indicador mais preciso, deve ser deixado a critério da sensibilidade do analista, que poderá vislumbrar o momento oportuno em que isso funciona. As entrevistas preliminares, o período de ensaio, são momentos de um processo, um tempo em que os protagonistas da cena se dão a ver, a se conhecer, em geral na posição face a face. Estão se medindo, se avaliando, se aquilatando. Momento de observação dos corpos, das aparências, do lugar eventualmente mágico em que poderá se transformar o consultório. Momento em que o analista decidirá se quer ou não atender aquele sujeito. Momento em que o analista apura sua escuta para chegar a um mínimo de elementos, de dados, de informações a respeito do discurso que está sendo proferido ali, discurso que bem pode ser revelador e também ocultador de uma determinada estrutura patológica. Isso leva tempo. Dias, semanas, meses, o tempo que for. Pois não basta haver transferência para que uma análise ocorra. Há que haver demanda de análise. Pode haver transferência como simples demanda de amor, que não conduz necessariamente ao tratamento analítico. A demanda de análise implica algo cada vez mais raro nos dias que correm: a disposição de alguém se questionar, tomando como parâmetro a verdade, a sua verdade, a verdade parcial do seu desejo inconsciente, que, sabido, poderá ser admitido ou não, há sempre um risco, mas há sempre a possibilidade de alguma liberdade, que faz o sujeito querer não desejar o que se apresenta fantasmaticamente como uma fatalidade.
Nos primeiros tempos da análise, Freud chegou a algumas conclusões, que considerava as "suas" conclusões, algo que não imporia a ninguém. A respeito do que seria ou não analisável, Freud preferia os adultos jovens, os que se expressavam com fluência, que denotassem "inteligência verbal" (embora ele muita vez andasse às voltas com o mutismo dos sintomas). Alguém que pertencesse a determinada classe social, que tivesse meios de bancar o tratamento, em geral longo e caro. Pensava que os pobres tinham mecanismos de defesa que os protegiam dos sofrimentos psíquicos. Avaliava o caráter de uma pessoa, e chegou a pensar que a análise não deveria ser indicada para todos, mas se reservava aos que tivessem honestidade intelectual, disposição de mexer em feridas às vezes parcialmente cicatrizadas, e com o risco de reabri-las. Esse risco era sempre examinado com uma perspectiva ao mesmo crítica, irônica e cética. Freud pensava que não se deveria retirar a neurose de determinadas pessoas, pois era o que possuíam de melhor, e que, se a neurose fosse removida, o sujeito ficaria reduzido a nada. Pensava que depois dos cinqüenta anos seria muito difícil que um sujeito aprendesse alguma coisa, já estaria rígido. Os muito jovens também não se adequavam, pois eram muito influenciáveis, muito sugestionáveis.
Freud não tinha lá muita simpatia pelos psicóticos, e dizia que a análise dava conta dos casos de neurose muito bem, uma vez que nesses últimos a transferência possibilitaria o tratamento, ao contrário da psicose, que, pela dimensão narcísica, dificultaria a instalação da transferência.Apesar disso, o estudo que Freud nos deu da psicose abriu caminho para todos os psicanalistas. Hoje, esses limites do tratamento são ampliados. Lacan exortou o psicanalista a não recuar diante da psicose. Sabe-se, também, que alguns analistas são mais reservados, quanto à indicação para psicóticos, reconhecendo que a análise não deve ser tentada nos momentos de surto, de crise aguda, aproveitando-se, talvez, os momentos dos "intervalos lúcidos". Essas são algumas indicações que podem ser mencionadas, quando se discute a analisabilidade dos casos. Do lado do analista, existem referências ao sentimento que eles teriam diante de determinados sujeitos. Winnicott, por exemplo, diz que quando se sente mal, desconfortável, diante de um paciente, é certo que seu diagnóstico tenderá para a psicose, o que é muito problemático, mas levanta a questão de o analista prestar atenção no que ele próprio sente, isto é, a "sua" transferência, se está ou não em bons termos com as emoções, os sentimentos, as idéias, as palavras, as questões apresentadas por um determinado sujeito.
Então, os primeiros passos na clínica psicanalítica consistem na criação de um dispositivo que faz do analista um "praticante do simbólico", alguém que "trata o real pelo simbólico", que abandonou a ilusão onipotente de "governar o real", e mantém a sensibilidade para a dimensão imaginária, as paixões que a transferência mobiliza: o amor, o ódio e a ignorância, mantendo a sensibilidade para a demanda, sem nunca atendê-la, de modo a que o sujeito possa admitir a mentira de sua existência e se redescubra em "anseio de ser", admitindo a "falta-a-ser", aceitando a castração e a finitude e a verdade parcial do seu desejo inconsciente. Para tanto, o primeiro passo de alguém que se disponha a ocupar o lugar do analista é a sua própria análise.