No seu Seminário, Livro 14, intitulado "A lógica da fantasia" (1967), Lacan afirma que "o inconsciente é a política". Ele não diz que a política é o inconsciente, mas sim que o inconsciente é a política, apontando para a importância de um sujeito subversivo do desejo inconsciente. Esta surpreendente afirmação já é o bastante para ficarmos de orelha em pé. Ela nos sugere que, muito longe de um indiferentismo em matéria de política, Lacan tomou posições. E essas posições estão muito longe de defenderem ideologias conservadoras em matéria de política. Tanto Freud, quanto Lacan não se enganaram quanto aos ideais utópicos e as ilusões ideológicas cultivadas pelo sonho de liberdade de um primeiro marxismo, mas isso não impede que a psicanálise contemporânea, justamente apoiada na crítica da cultura, faça a mais radical denúncia do capitalismo.
Fico espantado com o desprezo e o desconhecimento da obra de Lacan por parte de alguns marxistas. Bastaria lembrar umas poucas referências que Lacan fez a Marx para que a questão da associação entre psicanálise e marxismo, mantidas as suas diferenças, ganhasse novos e surpreendentes contornos. Em primeiro lugar, Lacan afirma que não se supera Marx. Mais importante ainda: Lacan sustenta que Marx foi o inventor da noção de sintoma. Lacan também admite que se inspirou na noção de mais-valia de Marx para formular sua grande contribuição para a psicanálise: o objeto pequeno a, objeto causa de desejo e do mais-de-gozar. Lacan lê "O Capital" e aponta a descrição feita por Marx do momento preciso em que o capitalista, em meio às tecnicalidades de um economês feito para encobrir o logro, o lucro, o capitalista ri, e é aí que ele goza. Lacan valoriza a denúncia de Marx, que descobre no coração do sistema econômico aquilo que o sustenta, o gozo de um sujeito.
Ora, esses e muitos outros apontamentos não me parece que sejam levados na devida conta pelos críticos da cultura. Parece que se deixam intrigar pelas posições mais conservadoras que dizem da dificuldade de se ler a obra lacaniana, como se pudesse ser fácil a leitura de qualquer obra científica respeitadora do paradigma da complexidade do mundo contemporâneo.
Em respeito a esse paradigma, indico o lugar teórico de onde procede minha articulação. Podemos concordar com o psicanalista Horus Vital Brazil, quando ele afirma no seu livro "Psicanálise Cem Anos Depois e Outros Ensaios" (Book Link, 2004), que a psicanálise é uma prática teorizada, que se apóia na soberania da clínica do sintoma, mas não deixa de considerar a experiência do sujeito com a ilusão, o engano e a verdade. Tomando o real pelo simbólico, o psicanalista indica o valor operatório do conceito de inconsciente, definido como acrônico, atemporal, alteritário, eminentemente incognoscível e transubjetivo . Como prática teórica, a atividade do analista se desdobra nas duas dimensões de uma psicanálise intensiva, aquela que se pratica no consultório, e uma psicanálise extensiva, que, a exemplo de Freud, intervem na cultura, questionando o mal-estar e contribuindo com a noção de sublimação para superação de seus impasses, mantendo o respeito pelas diferenças, seja no plano da diferença sexual, seja no da diversidade cultural.
Apoiando-se na noção lógica de oposição inclusiva, a psicanálise pode pensar a tensão, a oposição entre indivíduo e sociedade, dizendo que não há um sem o outro, levando em conta a dimensão da subjetividade - tão esquecida-reprimida pelo marxismo -, e recolocando a questão do sujeito para a filosofia e a ciência, desfazendo as ilusões da consciência e levando em conta a alienação primária constitutiva do sujeito no que ele desconhece o seu corpo próprio. Ao mesmo tempo, pode criar as condições de inclusão social em oposição ao sistema que se baseia na exclusão. A oposição inclusiva permite pensar a destituição do narcisismo baseado na lógica binária do "ou um, ou outro", uma lógica da oposição exclusiva, que desemboca sempre na violência, e que pode ser superada pela lógica do "ao menos três" do Édipo, a lógica do simbólico que leva em conta o terceiro excluído.
Ao romper com uma forma de saber que se reduz à dimensão da consciência, a psicanálise funda uma nova forma de saber referida às metamorfoses do desejo inconsciente, um inconsciente definido como transubjetivo, e, portanto, estruturado como uma linguagem, dizia Lacan. É esse inconsciente que aponta os limites do conhecimento, e que nos lembra da função de desconhecimento, que pode ser associada à alienação individual e social. Ao afirmar que é apenas ideal uma suposta unidade entre teoria e prática, que poderia atender a um apelo quase místico de uma convocação para que todos se unissem ao mesmo tempo na destruição da alienação social, o psicanalista Horus Vital Brazil lembra que só nos aproximamos desse ideal: e que é "forçoso reconhecer, considerando a hegemonia do 'saber da prática' no discurso contemporâneo da ciência, que só Marx e Freud chegaram perto dessa unidade. O primeiro em relação ao devir sócio-histórico da humanidade valorizando o pensamento crítico e associando a teoria a uma prática política e de ação social, e o segundo articulando uma prática interpretativa a uma teoria que também se associa a um criticismo e, a partir do sofrimento individual, valoriza a razão cética para falar do destino psicossexual do ser humano." (Obra citada, p. 116).
Vital Brazil propõe um encontro entre Marx e Freud, um encontro renovado pela contribuição de Lacan que permite a expansão do conceito freudiano de inconsciente e a ampliação da noção marxista de práxis. Ele nos fala de uma "praxeologia" como uma estratégia e uma lógica do conhecimento, apoiada na idéia de um pensamento-ação, e referida a uma ética problemática que reconhece o conflito como permanente, como um conflito de valores, entre os quais o valor de uso e o valor de troca. O conceito de inconsciente freudiano é expandido pela inclusão do princípio de alteridade e pelo reconhecimento do papel determinante do símbolo, tal como foi ressaltado por Lacan ao definir o inconsciente como "o discurso do Outro". Por sua vez, a noção marxista de práxis é ampliada: além de ser o conjunto de atividades humanas que engendram as condições materiais da produção, passa a indicar também "as condições de existência de uma sociedade e a produção de significações", segundo Adam Schaff ("Langage et connaissance", 1974, Anthropos Ed., Paris).
Dois conceitos básicos da psicanálise e do marxismo são reformulados, indicando-se a centralidade da linguagem. Com isso, retoma-se a questão do real, "inacessível na sua pureza de real", para além do simbólico. Passa-se, então, da questão do real para a questão da significação, admitindo-se a diferença entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação. É porque reconhece que a realidade psíquica está presa num campo de significações e de valores, que Vital Brazil propõe seu aforismo: "o homem não pode não significar". Trata-se de lidar com a sofisticada noção de real, levando em conta a questão da acessibilidade desse real, se aceitamos a definição de Lacan (1973) de que "a práxis é qualquer ação realizada pelo homem que o põe em condição de tratar o real pelo simbólico", o que, no dizer de Vital Brazil, sugere "as condições em que podemos falar de um inconsciente político".
A questão de um inconsciente político que reúne Marx e Freud e busca definir uma "política do desejo inconsciente" deve ser acolhida criticamente, lembra Vital Brazil. Nas suas palavras, "torna-se imperativo reafirmarmos que é uma questão também ética para qualquer leitor ou intérprete, que sabe que a sua leitura/interpretação é uma apropriação, um "ato de desejo", separar as perspectivas críticas criadas pelo marxismo, das formas desmoronadas do socialismo totalitário e burocrático associadas a uma promessa, que não resolveu as questões estruturais da 'destrutividade do capital' (Mészáros,2001) e se provou esvaziada de seus conteúdos de liberdade e justiça social. Reconstruindo a perspectiva crítica do marxismo original, na tradição da radicalidade crítica de Rosa Luxemburgo tal como foi desenvolvida pela Escola de Frankfurt no seu encontro com a psicanálise, podemos nos referir a um 'luto pelo fracasso de um projeto de que não se pode abrir mão' (Habermas, 1962), um luto que não se completa e mantém estes ideais de justiça e liberdade no horizonte de qualquer grupo social." (Obra cit., p. 118-119).
A psicanálise, associada a um pensamento crítico na modernidade, quando nasceu, pode valorizar o dito de Baudelaire na sua expressão de "amor pelo inapreensível", ao denunciar as pretensões de uma razão imperial de um saber totalizante, não reconhecendo a última palavra em qualquer discurso. Por isso, pode nos ajudar a "desparanoizar" a questão do saber e do conhecimento, desfazendo a equação saber=poder, ao apontar para a dimensão do inconsciente como incognoscível, e associar o signo à dimensão do social. Pode diferenciar a ambição e a paixão pelo poder. Pode denunciar o estreitamento do campo de valores promovido pelo capitalismo tardio na etapa da globalização, quando o único valor que conta é a eficácia. Uma eficácia que não pára de instrumentalizar a razão imperial no jogo mortífero da destruição do planeta. A psicanálise pode valorizar o enigma e o mistério de um corpo falante. Pode nos ajudar a entender que a satisfação do desejo é sempre parcial, o que nos faz escapar da injunção de um supereu que nos obriga contemporaneamente a gozar a qualquer custo, resultado da associação promovida pelo pragmatismo das duas "torres gêmeas" da ciência e da tecnologia.
Na sua articulação de um inconsciente político, Vital Brazil valoriza uma série de autores empenhados na construção de uma teoria crítica da cultura. Ao ressaltar a noção de sujeito dividido, suposto pela psicanálise, marcado radicalmente por sua incompletude, e que poderia valer-se da dúvida como a "razão dimensionada" (Lacan), Vital Brazil cita a contribuição de Adorno (1986) que valoriza "a contradição de um pensamento sem síntese", a contradição entendida como indício de verdade de um pensamento que não pode ser afirmado ou negado, "porque só assim pode-se manter o sujeito em suspenso entre verdade e saber" (p. 128). Valorizando a contradição que mantém a dinâmica do permanente conflito na cultura e no indivíduo, Vital Brazil diz que "é só pela contradição que se faz ato de palavra, pela contradição 'performativa', pela contradição em ato e pelo princípio 'dialógico' da razão (Bakhtin,1986), implicando o Outro a que a mensagem se dirige em busca de um poder de influência, que a validação de uma verdade efetivamente proferida pode ser realizada em um contexto discursivo, não por uma consciência solitária, mas por todos os interessados, isto é, pelo princípio de validação da razão argumentativa (Perimam,1972). Vital Brazil pretende uma associação de Chaim Perelman, com sua nova retórica e sua teoria da argumentação para, numa ação política, destronar a razão monológica, propondo uma racionalidade persuasiva, "imersa na contingência e na temporalidade da história".
Pela razão dimensionada, argumentativa, apoiando-se na fecundidade e produtividade da dúvida, Vital Brazil propõe um "inconsciente retórico", aproximando a "ética discursiva" de Habermas (1976) da teoria da argumentação de Perelman (1970), "fazendo da retórica a única prática em que a nossa sociedade reconhece a soberania da linguagem, e dando à dialética um sentido de 'retórica erotizada' (Barthes, 1985), traduzindo-se no diálogo que busca um pensar em comum pela aceitação das diferenças", e valorizando a sublimação (sem esquecer que ela é também uma figura de retórica, a "sublimitas", sempre na dependência do reconhecimento social, levando em conta, portanto, a resposta do Outro, "um valor que Freud elegeu como um dos destinos da pulsão, como "um traço particularmente distintivo de desenvolvimento cultural", como disse na obra "O mal-estar na civilização"). Vital Brazil recorre também à desconstrução do logocentrismo de Derrida, à análise da finitude, de Foucault, e à obra do crítico marxista norte-americano Frederick (?) Jameson, autor de "O inconsciente político", e de "A cultura do dinheiro: ensaios sobre a Globalização", para reconhecer que "a única libertação efetiva, que se traduz em uma consciência política, começa com o reconhecimento de que, no 'mundo vivido' (Lebenswelt) das significações, 'nada existe que não seja social e histórico, que tudo é, em última análise, político'".
Ao articular a noção de "inconsciente político", Vital Brazil nos diz que a ação discursiva, a "política ética" do ato psicanalítico, entendido como atividade interpretativa, dependente da disponibilidade subjetiva, solicitando a subjetividade num tempo compartilhado, associa-se a uma posição crítica da cultura, valoriza o inconsciente interrogativo, e impede que as individualidades se reduzam a uma consciência de si a si, individualidades alienadas, nesses tempos de perversão fetichista e cultura narcísica, em que o psiquismo cai nas armadilhas da "falsa consciência", ao aceitar passivamente valores e normas impostos pela coletividade. É por isso que pode valorizar o apelo a uma coletividade para que questione permanentemente seus valores pela "transgressão criativa das individualidades", aceitando as utopias como " expressões das ideologias do desejo", aceitando a permanência do conflito na cultura, a descontinuidade, as rupturas, e o acaso na história.
O "inconsciente político", segundo Vital Brazil, pode ser um encontro entre Marx e Freud, na reunião da psicanálise com a economia e a teoria do valor. Assim, pode-se aproximar o conceito de "mais-valia" de Marx e a concepção lacaniana de "mais gozar", um "a mais" que indica o excesso pulsional. Esse seria o ponto de encontro entre a teoria freudiana do desejo e a teoria econômica marxista. A teoria freudiana do desejo define o destino "psicossexual" do sujeito enquanto individualizado numa história singular. A teoria econômica marxista define o destino "psicossocial" da coletividade. Vital Brazil chama atenção para um aspecto que está presente nas duas teorias: a noção de "fixação". Diz ele: "Todas as duas teorias fazem a diferença entre o movimento na diversidade e a fixação, a parada na história individual ou coletiva que se opõe ao movimento gerado pela própria diversidade. Lacan (1988) chega a dizer que Marx é o inventor do sintoma - uma metáfora ou efeito de condensação - ao ser o primeiro a conceber uma formação de compromisso além do 'valor social da mercadoria' que engloba e confunde valor de uso e valor de troca, e escrever que 'a burguesia seria uma formação de compromisso entre o feudalismo e a ditadura do proletariado' ( Marx,1977, "Grundrisse; foundations of the critique of political economy", transl. By M. Nicolaus, Penguin Books, GB).
O sintoma é polissêmico, carrega a ambigüidade própria da linguagem. É esse valor crítico, segundo Vital Brazil, que pode aproximar a concepção de subversão em Marx, associada ao criticismo e à teoria do valor, e a concepção de subversão do sujeito, associado à metonímia do desejo e à alienação significante. Vital Brazil dá um passo adiante, ao nos falar do fetichismo (lembremos que a palavra "fetiche" vem de "feitiço", tem sua origem na língua portuguesa, na nossa língua materna, e isso nos fala muito de perto dessas primeiras alienações do sujeito em confronto com o Outro, nos fala dos "enfeitiçamentos" tanto do indivíduo, como nos aponta a clínica psicanalítica, quanto da coletividade, como nos aponta a economia política, ciência fundada por Marx).
Vital Brazil associa a teoria marxista do fetichismo da mercadoria à interpretação do fetichismo em Freud (1927): a "alienação capitalista" dos meios de produção "inverte a relação causal indivíduo/classe social (a classe ganha autonomia com relação aos indivíduos e passa a ser causa das ações individuais); por sua vez, a psicanálise em extensão "denuncia essa inversão como uma alienação secundária; uma alienação que tem os seus determinantes nas representações ideativas dando um sentido de ideologização paralisante aos excessos de investimento no valor mercadológico dos objetos culturais de uma sociedade consumista, e tende a negar as diferentes opções de relação com a produção e a circulação dos bens." É essa sociedade consumista que não diferencia valor de uso e valor de troca, e tende a negar o valor de uso da mercadoria(p. 152).
Vital Brazil dá mais um passo, na aproximação entre as duas teorias, ao nos falar da perversão. Ele também reconhece aí uma inversão. A perversão é entendida como uma recusa da castração simbólica, na sua "vontade absoluta de gozo", como nos diz Lacan, e também está associada a uma "fixação imaginária". O sentido de inversão se torna patente "quando o fetiche ganha autonomia e aparece como determinando o desejo; basicamente negando o enigma da diferença sexual como paradigmático de todas as diferenças e da diversidade na cultura." A inversão do fetichismo "resulta no objeto ser personificado e a pessoa ser objetificada ou reificada." Para alguns autores, essa inversão pode resultar num "estado de alienação" que, embora secundário, está associado ao fenômeno do fanatismo tanto na fixação ideológica no plano social, quanto nas tentativas inúteis de congelar o desejo, no plano individual.
É assim que a noção de um "inconsciente político" proposta por Vital Brazil pode nos indicar uma saída dos impasses em que vivemos, no plano ético, individual, e no plano político, social, articulados numa oposição inclusiva, para questionar o imperativo de gozo, e ter acesso à criatividade.