"A natureza é má" - Sade
No livro A família em desordem, Elizabeth Roudinesco ao descrever as mudanças ocorridas no seio da família ocidental, ressalta a decadência/deslocamento/esvaziamento da figura paterna e o poder/dominação da materna e diante de tais situações novas questiona sobre o homossexualismo e os seus valores:
O que aconteceu então nos últimos trinta anos na sociedade ocidental para que sujeitos qualificados alternadamente de sodomitas, invertidos, perversos ou doentes mentais tenham desejado não apenas serem reconhecidos como cidadãos integrais, mas adotarem a ordem familiar que tanto contribuiu para seu infortúnio?" (p.7).
No século XVIII houve uma mudança e instalou-se uma nova ordem social com o advento da burguesia, e como conseqüência a centralidade da família foi colocada na maternidade, no feminino. Segundo a autora, há, hoje, uma banalização do prazer sexual (uma mercadoria como outra qualquer), a fecundidade já não é mais do domínio sexual, na relação do sujeito com o prazer. As questões levantadas por Roudinesco tem um âmbito muito maior que o recorte que farei sobre a questão da homossexualidade, especificamente o homossexualismo feminino e as possíveis articulações com o fetichismo, ou até mesmo nos debruçarmos sobre a interrogação se existe a perversão feminina. Tentar resolver o problema da perversão feminina não é possível, mas o objetivo da minha comunicação é encontrar coordenadas que se cruzam, abarcando três pontos:
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1º) as questões relativas à homossexualidade feminina;
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2º) o cruzamento da homossexualidade e o fetichismo e
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3º) introduzir a questão da perversão na mulher.
1. Homossexualisno
Mesmo a homossexualidade não sendo considerada uma doença pelo DSM4, nem uma perversão desde Freud, é neste ano da perversão que estudamos as questões relativas ao homossexualismo.
Falar da história da homossexualidade é falar da história da homossexualidade masculina, isto está descrito na literatura grega, romana e em inúmeras publicações sobre o assunto. Poderíamos inferir que este fato comprova que o erotismo entre mulheres é mais aceito na cultura e que há uma dessimetria entre esses homossexualismos?
Freud , no texto "Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade", articulará a perversão diretamente relacionada com a sexualidade infantil. Na elaboração da teoria da sexualidade infantil dá ênfase à ontogênese, isto é, aos distúrbios ligados a múltiplos fatores no desenvolvimento individual e também, neste artigo, chega a atribuir às mulheres, cujas pulsões não teriam sido suficientemente civilizadas, a essência das perversões sexuais. Teoriza o caráter perverso polimorfo da sexualidade infantil, a parcialidade das pulsões e a bissexualidade inata nos seres humanos.
Afirma que todo desvio da pulsão quanto ao objeto e ao fim é uma perversão.Ao definir as "aberrações sexuais", coloca o homossexualismo como exemplo do desvio da pulsão quanto ao objeto. Define o homossexualismo como uma inversão na escolha do objeto sexual, quando se toma um parceiro do mesmo sexo. Mas, há uma ambivalência quanto ao lugar a ser ocupado pelo homossexualismo, mesmo em Freud. Em algumas comunicações, liga o homossexualismo à perversão, e em outras não considera essa ligação, como no artigo "Um estudo autobiográfico"(1925):
"Encaradas do ponto de vista psicanalítico, mesmo as perversões mais excêntricas e repelentes são explicáveis como manifestações de instintos componentesda sexualidade que se liberaram da primazia dos órgãos genitais e que se acham agora em busca do prazer por sua própria conta, como nos primeiros dias do desenvolvimento da libido. A mais importante dessas perversões,a homossexualidade, quase não merece esse nome. Ela pode ser remetida à bissexualidade constitucional de todos os seres humanos e aos efeitos secundários da primazia fálica. A psicanálise permite-nos apontar para um vestígio ou outro de uma escolha de objeto homossexual em todos os indivíduos. Se eu descrevi as crianças como "polimorficamente perversas" estava apenas empregando uma terminologia que era geralmente corrent;, não estava implícito um julgamento moral" (p.62.)
Mas esse fator relacionado com a sexualidade infantil não é suficiente para que a estrutura do sujeito seja perversa, é preciso acrescentar a isto a forma como se deu a resolução edípica para esse sujeito. É em função dos amores edipianos que se constitui, para Freud, a "escolha" pelo sujeito de sua própria neurose. E para que a resolução edípica ocorra é preciso articular com o Complexo de Édipo, a castração e estas construções psíquicas vão orientar o curso da economia psíquica.??? A estrutura perversa tem a sua origem em torno de dois pólos: a angústia da castração e a mobilização de processos defensivos: a fixação e a denegação da realidade.Segundo Freud, estes dois processos defensivos são os dois mecanismos constitutivos da homossexualidade e do fetichismo.No texto "As teorias sexuais infantis" a organização do processo perverso,sobre a vertente da homossexualidade, está diretamente relacionada com a homossexualidade masculina. Joel Dör, no seu livro Estruturas e clínica psicanalítica ao falar sobre a homossexualidade feminina, ressalta uma diferença:
Este problema é particularmente importante do ponto de vista do diagnóstico. De fato, a própria idéia da existência de uma estrutura perversa na mulher é bastante problemática, quando, ainda assim, é incontestável que possamos observar manifestações perversas nos comportamentos femininos. Em suma, a homossexualidade masculina inscreve-se em um dispositivo psíquico radicalmente diferente daquele que preside à homossexualidade feminina.
Freud ao longo de suas pesquisas tentará sempre distinguir os caminhos tomados, diferentemente, entre o menino e a menina na resolução edípica, como se pode constatar na fantasia do "Bate-se numa criança".
J.D. Nasio em Um psicanalista no Divã, ao ser inquirido sobre como a psicanálise explica a homossexualidade em geral, responde:
"Não existe homossexualidade em geral! Atenção, só estou me referindo à homossexualidade masculina; o universo das mulheres lésbicas é de natureza completamente diferente "(p.54)
Existiria uma homossexualidade primária na menina? Não seria, neste caso, simplesmente a complexa escolha objetal o ponto central da via homossexual nas mulheres, mas, sim, a consideração da própria mulher como um enigma, como enigma da feminilidade.
Serge André , em A impostura perversa, traça algumas diferenças entre os dois homossexualismos:
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Em relação ao pai:
O homem sexual cede todas as mulheres ao pai e assim se esquiva de qualquer conflito com ele; a mulher homossexual abandona todos os homens à mãe, prepara o terreno onde se atribui a missão de enfrentar o pai no próprio campo do desejo. Onde o homem homossexual desiste, a mulher homossexual, ao contrário, desafia o desejo paterno, disputando suas mulheres e a posse do falo ou de suas insígnias.
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Quanto às relações sexuais:
No caso da homossexualidade masculina sempre implica na castração no real (nem que seja sob a forma do desmentido) e o erotismo entre dois parceiros sempre comparecerá os dois pólos de opostos da diferença sexual: ativo/passivo, senhor/escravo, macho/fêmea. A homossexualidade feminina deixa a questão da castração em suspensão, pelo menos no nível do real. Os homens podem prescindir da referência do sexo oposto e reunir-se numa espécie de circuito fechado; a homossexualidade feminina implica sempre a presença de um terceiro masculino, a quem ela propõe seu enigma e desafio.
É capaz de amar realmente uma mulher quando se é homem? Questiona Serge André.
No estudo da homossexualidade feminina, ao contrário das teorizações sobre a homossexualidade masculina, constatamos uma escassez de publicações. Em geral, sua história começa na Antiguidade, na Ilha de Lesbos, onde a poetisa grega Safo cultuou o amor lésbico. Também em Roma, Bassa, faz versos para suas ninfas:
Ousais unir duas vulvas e, através do simulacro do amor, substituir o homem ausente. Lograis um milagre tão espantoso quanto o mistério tebano: cometer adultério sem a participação do homem.
Estes versos aparentemente simples , sob o olhar de Lacan, vão tocar em pontos caros para o assunto em questão: a primazia do falo; o mal-entendido, Misslingen, e ignorância da existência como tal do órgão feminino; a existência do clitóris se deve à predominância da fase fálica nas menina; a dialética do dom, entre outras questões .
Lacan, no Seminário 4, A relação de objeto, ao analisar os textos freudianos Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina (1920), Bate-se numa criança(1919) situa o sujeito feminino numa posição caracterizada pela ambigüidade das relações naturais e simbólicas Nssa ambigüidade, segundo Lacan, é precisamente onde reside a dimensão analítica. O que é natural e biológico, como o próprio sujeito é tomado pela cadeia simbólica, não cessa de referir-se ao plano simbólico.
Lacan vai situar a homossexualidade feminina nas etapas que a mulher deve transpor para efetuar sua realização simbólica.
Tudo irá girar em torno da fase fálica, etapa terminal da primeira época da sexualidade infantil, que termina com a entrada no período da latência, fase típica tanto para o menino quanto para a menina - a posse ou não do falo. A menina quando entra no édipo começa a desejar um filho do pai como substituto do falo faltoso e a decepção de não recebe-lo desempenha um papel essencial para fazê-la voltar atrás do caminho paradoxal por onde ela entrou no édipo, a saber, a identificação com o pai, em direção à retomada da posição feminina. Tudo que se relaciona com a prevalência, ou predominância, do falo, numa etapa da evolução da criança assume suas incidências num só-depois. O falo só pode só posto em jogo na medida em que seja necessário. Num dado momento simboliza algum acontecimento, como por exemplo, no caso da jovem homossexual relatado por Freud.
Trata-se de uma jovem, dezoito anos, bonita, inteligente, classe social elevada que se tornou um objeto de preocupação para seus pais. Ela mantém relações com uma dama do mundo, dez anos mais velha. Segundo Lacan, a jovem na sua atitude de doce flerte com o perigo, ia passear com a dama quase diante das janelas de sua própria casa. Um dia o pai as vê e lança-lhes um olhar fulminante. A dama se aborrece e diz a jovem, que não a veria mais. A moça se atira diante em uma pontezinha, ela cai, niederkommt. Como Freud explicou este fato? Pelo desejo de ter um filho do pai, tomar posse da criança imaginária; mas é sua mãe quem tem, realmente, um outro filho do pai. E quando a jovem cai da pequena ponte, ela faz um ato simbólico, o niederkommen, verbo que em alemão se refere ao parto de uma criança. A paixão da jovem pela dama é descrita por Freud como uma relação homossexual mas implicando um amor do tipo platônico. É verdadeiramente o amor cortês: é a exaltação que está no fundo da relação. É a própria ordem em que um amor ideal pode se expandir: a instituição da falta na relação com o objeto. Desejo e amor para além da mulher amada - o que é amado no objeto é aquilo que falta a ele, só se dá o que não se tem. Aqui se cruza a questão do homossexualismo feminino e o fetichismo.
2. Homossexualismo e fetichismo
Para Lacan, pelo fato da mulher ser não-toda submetida à castração, poderíamos pensar que existe uma via natural aberta à perversão. O enigma do feminino comparecerá com causa da perversão, no mecanismo da "Verleugnung", a recusa de reconhecer a falta na mulher/mãe. Esse "feminino primordial", no qual a filha atribui à mãe uma onipotência fálica, um gozo ilimitado e devorador, é aí, neste ponto, que há uma conexão entre o feminino e a perversão. Há na literatura psicanalítica algum caso de fetichismo feminino? A indagação de Serge André em Impostura perversa é por ele mesmo respondida: "nunca se observou, ao que parece, um caso de fetichismo feminino" (p.97).
Não tendo nada a salvar,ao contrário do menino, a menina se mantém no lugar de objeto para um Outro .Assujeitada ao desejo do Outro, ocupando este lugar de objeto a, a mulher é tomada como instrumento e objeto de perversão, será fetichizada, mas não fetichista. Ao oferecer seu corpo ao gozo do Outro, ela torna-se, para ela mesma, seu próprio fetiche e quanto mais encarna fantasias perversas, mais causa o desejo do homem, pervertendo sua libido de um modo narcísico, na medida em que a pulsão é desviada da sua mente. No primado do feminino que mascara o vazio da feminilidade, o sujeito desaparece ao ocupar este lugar de objeto, o que nos mostra a impossibilidade da representação do feminino. Na premissa da universalidade do falo , das teorias sexuais infantis, o perverso é o sujeito que não abre mão dessa premissa, está identificado ao instrumento que faz o outro gozar. É neste sentido que Piera Aulagnier irá observar a fascinação que as mulheres tem pela paixão. No ato do amor é a mulher que recebe mais do que dá, ela recebe o falo simbólico (presença/ausência). Este falo a mulher não o tem simbolicamente, mas não ter o falo, a título de ausência, é tê-lo de alguma forma. O falo está sempre além da relação homem/mulher, mas ao mesmo tempo em que ele está e não está aí é que se instaura a diferenciação simbólica entre os sexos.
O fetichismo também aparece como uma disposição exclusivamente masculina. Ele se funda sobre o mecanismo da denegação da realidade de uma percepção traumatizante: a ausência do pênis na mãe e, consequentemente, na mulher.
Aqui chegamos num ponto em comum sobre a questão da homossexualidade, do amor e da paixão, com a rejeição do sexo.
Segundo Piera Aulagnier, no artigo "Observações sobre a feminidade e suas transformações", no livro O desejo e a perversão:
A homossexual venera em sua parceira aquilo que a desola porque não o possui, não pênis, mas a feminidade; é isso que lhe dá inveja; este é o seu objeto de seu arrebatamento no duplo sentido do termo: o que arrebata e o que gostaria de arrebatar-se. (p.85).
Mas então o que é a mulher para a outra mulher? A parceira mulher é revestida da imagem fálica, deseja-se a imagem por inteiro e essa imagem acaba por assumir o papel de fetiche. Mas o erotismo homossexual deve ser sempre concebido como uma encenação oferecida ao olhar de uma Testemunha, ele, que se supõe a respeito do Falo. Segundo Serge André, a clínica da homossexualidade feminina demonstra que as mulheres homossexuais "julgam-se verdadeiras sacerdotisas do culto ao falo, que elas estimam honrar muito mais dignamente do que fazem os homens, ao encarná-lo na representação do corpo feminino e não no órgão feminino".
(A impostura perversa - p.73). Serge André assegura que o enigma da feminilidade assume uma dupla função dependendo do sexo: faz falar os homens e calar as mulheres.
3- A Perversão feminina
Então, a perversão feminina seria uma via natural? Ou poderemos relacioná-la com a paixão? Já que a paixão carrega em seu conceito a noção de ignorância, seja no registro do saber ou no registro amoroso. Não querer saber da falta,seja na escolha homossexual ou o corpo da mulher como fetiche ou a própria mulher se oferecer-se e assujeitar-se ao desejo do Outro, ocupar o lugar de objeto a. Piera Aulagnier nos fala desta fascinação que a mulher tem pela paixão, como se a paixão fosse uma droga, o "absoluto da necessidade".
Se entrarmos nesse campo, então sairíamos da perversão e do homossexualismo e entraríamos no campo do feminino, da feminilidade. O que quer uma mulher? Freud responde: "ser amada".
Essas mulheres supervalorizam o amor. Ou essa supervalorização é uma característica não do homossexualismo, mas do feminino como na epígrafe da Introdução do ensaio e título do seu livro sobre Amor paixão feminina,de Malvine Zalcberg,em que é definido por Nietzsche baseado na diferença sexual: "A mesma palavra amor significa coisas diferentes para o homem e para mulher"
Por outro lado, Freud, no mesmo tópico sobre as aberrações sexuais, ao falar do sadismo e do masoquismo irá destacar uma vertente cruel da pulsão. Essa crueldade será ligada ao feminino. E é em relação aos aspectos femininos do masoquismo, que Freud entrevê a possibilidade da perversão feminina:
Existe uma relação particularmente constante entre a feminilidade e vida instintual, que não devemos desprezar. A supressão da agressividade das mulheres, que lhes é instituída constitucionalmente e lhes é imposta socialmente, favorece o desenvolvimento de poderosos impulsos masoquistas que conseguem, conforme sabemos, ligar eroticamente as tendências destrutivas que foram desviadas para dentro. Assim, o masoquismo, como dizem as pessoas, é verdadeiramente feminino (,p. 143)