NINGUEM NASCE MULHER
Quantas vezes nos acontece perceber que o que nos parece mais familiar como, por exemplo, a diferença sexual ( o que é ser mulher e o que é ser homem - perguntinhas de Alice), é na verdade de uma grande estranheza quando começamos a desconstruir nosso imaginário: "aquilo que constitui a masculinidade ou a feminilidade é uma característica desconhecida que foge do alcance da anatomia", já nos alertava Freud, em sua Conferência XXXIII, sobre a Feminilidade. Então, pensar a diferença sexual calcada na anatomia é insuficiente como resposta, basta nos debruçarmos na questão da homossexualidade, quando o sujeito faz uma escolha para além do sexo anatômico. Tema recorrente, na vida e na arte, da artista polaca Tamara de Lempicka (1898-1980), mulher independente e emancipada que chocava os padrões da década de 20 com seu comportamento abertamente bissexual.
Guimarães Rosa no seu livro Grande Sertão : Veredas faz uma travessia através da linguagem -"o que é pra ser são as palavras"- para mostrar os impasses da diferença sexual, no drama vivido por Diadorim e Riobaldo. Como explicar que um homem se apaixone por uma mulher travestida de homem? Rosa nos denuncia os equívocos amorosos, o quanto somos traídos pelo desejo e pelo desencontro, o uno que pressupõe o amor, já que o encontro só se dá no palco da morte, num "só-depois".
O homem, a mulher e o amor. A dificuldade de falar dessas relações. Mas vamos nos ater ao feminino.
A experiência analítica nos confronta com as queixas do feminino (que por sinal é um substantivo masculino!): o ciúme exagerado, a insegurança, o desprezo, o medo do abandono, a inquietude, a vingança, o sonho de exclusividade na vida de um homem, a crueldade, o masoquismo entre outras questões das ditas "mulheres". A procura de um analista está sempre relacionada a um processo de abandono ou a um rompimento de uma relação amorosa. Após a quebra desses vínculos, suas vidas se tornam vazias, sem sentido, perdendo a razão de existir. Dedicam toda existência a um relacionamento amoroso, amam serem amadas e se entregam a essa aposta. E quando o amor desaparece não lhes resta mais nada.
Outro escritor, o moçambicano Mia Couto, no livro Cada homem é uma raça, descreve no conto Princesa russa esse comportamento do feminino, esse sentimento de apossamento da vida do outro: "senti que ela já não tinha o seu próprio corpo: usava o meu (...) Ela tinha a pele branca que era a minha, aquela boca dela me pertencia, aqueles olhos azuis eram ambos meus. Era como se fosse uma alma distribuída em dois corpos contrários: um macho,ouro fêmea; um preto, outro branco". Por que razão uma mulher empresta sua vida ao outro? O que as mulheres querem? Já perguntava Freud e respondia Masoch - "sofrer, faça de mim o que quiser", o masoquismo feminino.
Psicanalistas ditos homens - Freud, Lacan, Serge Leclaire - e psicanalistas ditas mulheres - Colete Soller, Piera Aulagnier, Lou - Andreas Salomé, Malvine Zalcberg - vem tentando dar uma resposta para desvendar esse mistério. A história começa com Freud ao diferenciar os caminhos que acontecem na resolução edípica, na complexidade que é o Édipo feminino, no primado do feminino que mascara o vazio da feminilidade devido à premissa da universalidade do falo. A diferença é vivida pela menina com a pergunta: "Por que ele tem e eu não tenho (um falo)? Outro fator fundamental é a relação mãe e filha. O sexo não é dado, de saída, para a menina, segundo Freud. Mais tarde, Simone de Beauvoir dirá "ninguém nasce mulher, é preciso tornar-se mulher", construir a feminilidade. Lacan ousa mais quando afirma que a verdadeira mulher é Medéia, personagem da tragédia de Eurípides, a esposa repudiada que mata seus filhos por ciúmes do marido que se apaixona por outra. É a face da crueldade feminina.
Enquanto a resposta não vem, o continente continua negro, como nos diz Freud. Além de recorrer à literatura e à psicanálise, passarei pelo cancioneiro brasileiro, tão rico de sugestões sobre o tema. Podemos ficar com a beleza dos versos da música de Chico e Baiano cantada por Dolores Duran, Coisas de mulher; "Me aprontei pra sair/Quando você chegou/De ciúme chorou/E tudo acabou/ A mulher pra brigar/ Basta um motivo qualquer, Ai! Meu Deus/Por que é/Que o senhor fez a mulher". Mas, a compositora não poderia deixar de dar uma resposta, como nos versos de Ribamar e da própria Dolores: "Não pense que se você me deixar/A dor será capaz de me matar/De um verdadeiro amor, não se aproveita/E não se faz/Senão aquilo que merece/Depois ele se vai/A gente aceita/A gente bebe, a gente chora/Mas esquece!"
Assim, através da linguagem musical, poética, artística, vai se inscrevendo o feminino que tanto nos inquieta, e como nos diz Clarice Lispector: "enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever".
Beatriz Valle
Psicanalista