Página Inicial
 
Conheça o Centro
 
 
Conheça nossos atendimentos
 
Artigos sobre psicanálise
 
Conheça e colabore com a pesquisa sobre Autismo
 
 
 
 
Envie suas dúvidas
 
Entre em contato

Artigos

A BANANA E O FALO
Por Beatriz Valle

 

NÓS TEMOS INVEJA DO PÊNIS, YES?

Beatriz Valle

É a portuguesinha mais brasileira, a atriz e cantora Carmen Miranda, que nos en/cantou, revirando os olhos, com os versos: Yes, nós temos banana/banana pra dar e vender/banana, menina/tem vitamina/banana engorda e faz crescer. Mas, se era uma resposta a uma ideologia racista contra os latino-americanos, por que acabou para o lado das mulheres? A banana, símbolo tropical, é também um símbolo fálico presente na "cabeça" tão ousada de Carmen Miranda.

Mas, com Dr. Sigmund Freud eleito, pela revista Time, como um dos pensadores que mais influenciou a humanidade no século XX, tudo tem uma ênfase maior. A banana e o falo. O falo é o que orienta nossa sexualidade, é a primazia fálica. E, para o pai da psicanálise, ser mãe é uma das saídas de resolução edípica para a menina.  Segundo ele, a maternidade abriria um caminho para a feminilidade, tendo em vista que o filho seria alcançado pelas vias do endereçamento ao outro do amor, isto consequentemente colocaria a criança real como substituto simbólico do pênis.  A outra  "saída", para a mulher,  é a inveja do pênis. Esse era o nosso destino: ser mãe ou invejar o pênis. Aqui temos de entender o pênis como seu representante simbólico - o falo. O falo como símbolo da virilidade, da potência, do poder, e é toda essa significação que a mulher invejaria no homem.

Talvez essa vontade de igualar os sexos, ignorar as diferenças, ter o poder a qualquer preço, que fez  o movimento feminista fracassar. Camille Paglia, escritora e feminista norte-americana, numa entrevista a Luiz Carlos Moura, para o Jornal Folha de São Paulo (21/10/2007), diz que: "O movimento feminista tende a denegrir ou marginalizar a mulher que quer ficar em casa, amar seu marido e ter filhos, que valoriza dar à luz e criar um filho como missão central na vida. Está mais do que na hora de o feminismo ocidental conseguir lidar com a centralidade na maternidade para a maioria das mulheres do mundo". Disse bem, para a maioria das mulheres do mundo, não todas, é uma escolha querer ou não ser mãe, mas Freud não nos deixou essa liberdade de escolha, esse era o único meio de alcançar a feminilidade. Lógico que existiram psicanalistas, como Karen Horney, Lou-Andreas Salomé, entre outras que foram contra esse destino feminino.

Lacan dá um passo adiante e separa a mãe da mulher. Define a mãe como aquela que, através do filho, recupera o objeto que lhe falta e a mulher que, quando dirige sua libido ao homem, coloca-se na posição de faltosa. Mas, para Lacan, A Mulher não existe. O feminino seria uma mascarada. Como diz Serge André, "A mulher só pode ser atingida ou designada pelo viés do semblante". E lá vamos nós construindo nosso semblante para tamparmos a nossa falta, nossas deficiências, fragilidades, inseguranças, medos.

Fui encontrar essa possibilidade em Clarice Lispector que durante um tempo em sua vida dividiu as funções de jornalista e escritora, gostava de usar pseudônimos para não confundir os lugares.

De um lado, a escritora que denunciava, através de suas protagonistas: Macabéia em A hora da estrela, Joana em Perto do coração selvagem, G.H em Paixão segundo G.H., as mulheres de Clarice, o não  recuo diante do horror da maternidade: "A mulher simplesmente fêmea não é aquela que espera um filho, é aquela que não espera nada". Do outro lado, Helen Palmer, Tereza Quadros, pseudônimos de Clarice, a jornalista, que atuou como cronista, repórter, entrevistadora e ghost-writer da atriz e modelo Ilka Soares, que dava conselhos de etiquetas, moda, maquiagem e postura: "Ao andar, mantenha a cabeça erguida, os ombros nivelados, para trás, ventre encolhido. Evite dar passos muito largos ou muito curtos. Os pés para frente. Evite andar com as pernas duras ou afastadas. Ao pisar, pouse primeiro o calcanhar sobre o solo. Um porte elegante é importantíssimo para uma mulher que deseja ser bonita." E assim durante a década de 50 e 60 foram mais de 300 crônicas.

Podemos livremente, independentemente do sexo anatômico, freqüentar a posição masculina e feminina, sem termos que disputar e/ou destruir o outro. A posição masculina ligada à potência, à virilidade, e a posição feminina ligada à criatividade, à sensibilidade, e viva la difference!

Pegamos as bananas e fazemos como Carmen Miranda um belo turbante, cheias de balangandãs. Por que o que não podemos perder é a dimensão lúdica, jamás.

 

                                                                 Beatriz Valle é psicanalista

----
Publicado pelo Jornal O Popular

 
 
 
Desenvolvido por Carlos Filho.com - www.carlosfilho.com - Websites Goiânia