F A L O
"Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise", Juan-David Nasio, Jorge Zahar Editor
castração - falo - narcisismo - sublimação - identificação - supereu - foraclusão
O conceito de falo é apresentado logo depois do conceito de castração.
O termo "falo" aparece raramente na obra de Freud. A expressão "estágio fálico" (ou "fase fálica") é usada para descrever um momento particular da sexualidade infantil, momento que culmina com o complexo de castração (no menino).
Freud emprega mais amplamente o termo "pênis" para designar a parte ameaçada do corpo do menino e ausente do corpo da mulher. Nasio afirma que, para manter o vocabulário freudiano, manteve certa indistinção entre pênis e falo [embora Freud tenha mencionado o termo "premissa universal do falo" para descrever as chamaras "teorias sexuais infantis"].
"Coube a Jacques Lacan ter elevado o vocábulo "falo" à categoria de conceito analítico e reservado o termo "pênis" para denominar apenas o órgão anatômico masculino.Não obstante, em numerosas ocasiões, Freud já havia esboçado essa diferença, que Lacan se esforçaria por acentuar, mostrando como a referência ao falo é prevalente na teoria freudiana."
A primazia do falo não deve ser confundida com uma "suposta" primazia do pênis:
"Quando Freud insiste no caráter exclusivamente masculino da libido, não é de libido peniana que se trata, mas de libido fálica. O elemento organizador da sexualidade humana não é, portanto, o órgão genital masculino, mas a representação construída com base nessa parte anatômica do corpo do homem."
"A prevalência do falo significa que a evolução sexual infantil e adulta ordena-se conforme esse pênis imaginário - chamado falo - esteja presente ou ausente no mundo dos seres humanos."
Lacan sistematizou a dialética da presença e da ausência em torno do falo através dos conceitos de falta e de significante.
Mas o que é o falo?
Partindo-se do conceito de castração como pano de fundo, veremos que: o objeto central em torno do qual se organiza o complexo de castração não é o órgão anatômico peniano, mas a representação deste.
O que a criança percebe como atributo possuído por alguns e ausente em outros não é o pênis, mas sua representação psíquica, seja sob sua forma imaginária, seja sob sua forma simbólica. Falamos em falo imaginário e falo simbólico.
Falo imaginário
Falo imaginário (representação): a forma imaginária do pênis, ou o falo imaginário, é a representação psíquica inconsciente que resulta de três fatores: anatômico, libidinal e
fantasístico.
Fator anatômico: resulta do caráter fisicamente proeminente desse apêndice do corpo e confere ao pênis uma viva pregnância, ao mesmo tempo tátil e visual. A "boa forma" peniana se impõe à percepção da criança segundo a alternativa de uma parte presente ou ausente do corpo. Lembremos que "pregnância" se define como "qualidade que tem uma forma de impregnar o espírito do indivíduo e de ser por ele percebida no processo de grupação de elementos; a força da forma", segundo o Aurélio. Pregnante, então, é o que se diz da forma que apresenta o maior grau de pregnância na percepção de um conjunto de elementos. Impregnar é infiltrar-se em, penetrar, repassar, imbuir, embeber, ensopar, encharcar, infundir, incutir, assenhorear-se, compenetrar-se (de assunto,etc.).
Fator libidinal: a intensa carga libidinal acumulada nessa região peniana suscita as freqüentes apalpações auto-eróticas da criança.
Fator fantasístico: ligado à angustia provocada pela fantasia de que o órgão peniano possa um dia ser mutilado.
Assim, o terno "pênis" - vocábulo anatômico - é impróprio para designar essa "entidade imaginária" criada pela "boa forma" de um "órgão pregnante", pelo intenso amor narcísico que a criança deposita nele e pela extrema inquietação de vê-lo desaparecer.
O pênis, em sua realidade anatômica, não faz parte do campo da psicanálise: entra no campo analítico apenas como um atributo imaginário - o falo imaginário - do qual apenas alguns seres seriam providos.
Mas, o falo imaginário adquire uma condição inteiramente diversa: a de operador simbólico.
Falo simbólico
O falo é um objeto permutável.
A "figura simbólica do pênis", isto é, a "figura simbólica do falo imaginário", ou "falo simbólico" pode ser entendida de várias maneiras:
1a. Definição que atribui ao órgão masculino o valor de "objeto destacável" do corpo, amovível, isto é, removível, e "permutável" com outros objetos. Já não se trata aqui de ser um objeto presente ou ausente, como no caso do falo imaginário, mas de "ocupar um dos lugares de uma série de termos equivalentes".
O falo imaginário pode ser substituído por qualquer dos objetos que sejam oferecidos ao menino no momento em que ele é obrigado a "renunciar" ao gozo com a mãe. "Já que tem de renunciar à mãe, ele abandona também o órgão imaginário com o qual esperava fazê-la gozar. O falo é trocado por outros objetos equivalentes (pênis = fezes = presentes = ...)"
Isto é a "equação simbólica", segundo Freud. É uma série comutativa formada por diversos objetos que têm por função, "à maneira de um engodo", manter o desejo sexual da criança, ao mesmo tempo permitindo que ela se afaste da eventualidade perigosa["perigoza"] de gozar com a mãe.
Substituição da inveja do pênis pela vontade de procriar: o falo imaginário é "simbolicamente" substituído por um filho.
O falo é o padrão simbólico
2a. Falo é mais do que um termo entre outros numa série comutativa.
Falo é "a condição que garante a existência da série e torna possível que objetos heterogêneos na vida sejam objetos equivalentes na ordem do desejo humano."
"A experiência da castração é tão crucial na constituição da sexualidade humana que o objeto central imaginário em torno do qual se organiza a castração - falo imaginário - imprime sua marca em todas as demais experiências erógenas, qualquer que seja o lugar do corpo em questão."
Exemplos: desmame ou o controle do esfíncter anal: "experiências por que a criança passa e que estão na origem do desejo oral ou do desejo anal, e que reproduzem o mesmo esquema da experiência da castração."
Os objetos perdidos - o seio e as fezes - assumem o valor do falo imaginário.
O falo imaginário em si deixa de ser imaginário, exclui-se da série e se torna o padrão simbólico que possibilitará que quaisquer objetos sejam sexualmente equivalentes, isto é, todos referidos à castração.
Definição de castração: "a aceitação, por todos os seres humanos, do limite imposto ao gozo em relação à mãe."
O falo exclui-se da série comutativa e se constitui como seu referencial invariável porque persiste como vestígio de um acontecimento fundamental que é a castração.
"O falo simbólico significa e lembra que todo desejo do homem é um desejo sexual, isto é, não um desejo genital, mas um desejo tão insatisfeito quanto o desejo incestuoso a que o ser humano teve que renunciar."
Lacan: o falo é o significante do desejo: todas as experiências erógenas da vida infantil e adulta, todos os desejos humanos (desejo oral, anal, visual, etc.) permanecerão marcados pela experiência crucial de ter tido que renunciar ao gozo com a mãe e aceitar a insatisfação do desejo: todo desejo é sexual e, em última instância, insatisfeito.
"Sexual", "sexualidade": não se referem ao erotismo genital, e sim ao fato essencial da vida libidinal: "as satisfações são sempre insuficientes no tocante ao mito do gozo incestuoso."
Significante fálico: é o limite que separa o mundo da sexualidade sempre insatisfeita do mundo do gozo supostamente absoluto.
Para lembrar: pênis real não é falo imaginário; falo imaginário não é falo simbólico.
Falo simbólico: dois estatutos: é um objeto substituível entre outros, e também o referencial que garante a própria operação de sua substituição.
O falo é o significante da lei (Lacan)
3a. Lacan: a castração não é apenas a ameaça provocadora da angústia do menino, nem apenas a constatação de uma falta na origem da inveja do pênis na menina: ela se define fundamentalmente pela separação entre a mãe e a criança. A castração é o corte produzido por um ato que cinde e dissocia o vínculo imaginário e narcísico entre a mãe e o filho.
A mãe, na qualidade de mulher, coloca seu filho no lugar do falo imaginário, e o filho, por sua vez, identifica-se com esse lugar para preencher o desejo materno.
O desejo da mãe, tal como o de toda mulher, é ter o falo.
Assim, a criança se identifica como sendo, ela mesma, esse falo - o mesmo falo que a mãe deseja desde que entrou no Édipo.
Por isso, a criança se aloja na parte faltosa do desejo insatisfeito do Outro materno.
É uma relação imaginária consolidada entre uma mãe que acredita ter o falo e o filho que acredita que é o falo.
O ato castrador incide não exclusivamente sobre a criança, mas sobre o vínculo mãe-filho.
Agente do corte: em geral, é o pai, que representa a lei da proibição do incesto.
Ao lembrar à mãe que ela não pode reintegrar o filho em seu ventre, e ao lembrar ao filho que ele não pode possuir a mãe, o pai castra a mãe de qualquer pretensão de ter o falo e, ao mesmo tempo, castra o filho de qualquer pretensão de ser o falo para a mãe.
A palavra paterna encarna a lei simbólica e consuma, portanto, uma dupla castração: castrar o Outro materno de ter o falo e castrar a criança de ser o falo.
Diferenças entre Freud e Lacan em relação ao falo e à castração:
- a castração não é tanto uma ameaça ou uma inveja, mas um ato de corte;
- o ato de corte incide mais sobre um vínculo do que sobre uma pessoa;
- o ato de corte visa a um objeto: o falo imaginário, objeto desejado pela mãe e com o qual a criança se identifica;
- o ato de castração, apesar de assumido pelo pai, não é, na realidade, produto de uma pessoa física, mas a operação simbólica da fala paterna; o ato da castração é obra da lei à qual o próprio pai, como sujeito, está inevitavelmente submetido.
- Limite do gozo: mãe, pai e filho, todos estão assujeitados à ordem simbólica que dá a cada um seu lugar definido e impõe um limite a seu gozo. O agente da castração é a efetuação dessa lei impessoal, estruturada como uma linguagem e completamente inconsciente, em todas as suas variações.
- Comparecimentos da castração na vida cotidiana: uma experiência por atravessar, um obstáculo a superar, uma decisão a tomar, um exame a passar, etc., todos são desafios da nossa vida diária que "reatualizam, sem o conhecimento do sujeito e ao preço de uma perda, a força separadora de um limite simbólico;
- Lacan: a castração é simbólica, e seu objeto, imaginário: a castração é a lei que rompe a ilusão de cada ser humano de se acreditar possuidor ou identificado com uma onipotência imaginária.
- Falo simbólico: assemelha-se à lei em seu poder proibidor do incesto e separador do vínculo mãe-filho;
- Paradoxo singular: o mesmo falo, enquanto imaginário, é o objeto visado pela castração, e, enquanto simbólico, é o corte que efetua a castração.
- Pênis real: por estar investido, existe apenas como falo imaginário;
- Falo imaginário: por ser permutável, só existe como falo simbólico;
- Falo simbólico: por ser o significante do desejo, confunde-se com a lei separadora da castração.
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Citações das obras de Freud e Lacan sobre o falo
Freud: o falo é um objeto destacável e substituível:
- "O pênis é então reconhecido como algo que pode ser separado do corpo e é identificado como análogo ao excremento, que foi a primeira porção de substância corporal a que se teve de renunciar".(1917, "Sobre as transformações da pulsão, particularmente no erotismo anal", ESB, XVII).
- [...] não é somente nos órgãos genitais [que a criança] situa a fonte do prazer por que espera, mas outras partes do corpo aspiram nela à mesma sensibilidade, fornecem sensações de prazer análogas e podem, desse modo, desempenhar o papel de órgãos genitais." (1917, "Conferências introdutórias", ESB, XV, Parte II, confe. XIII.)
Lacan: o falo é um padrão simbólico:
- "O falo na doutrina freudiana não é uma fantasia, se com isso se deve entender um efeito imaginário. Tampouco é um objeto como tal ( parcial, interno, bom, mau, etc.) na medida em que esse termo tenda a precisar a realidade interessada numa relação. É ainda bem menos o órgão, pênis ou vagina, que simboliza [...] Porque o falo é um significante [...], o significante destinado a designar em seu conjunto os efeitos de significado." "A significação do falo", 'Écrits', 690.
O falo é o significante do desejo:
- "E, de saída, porque falar de falo, e não de pênis? É que não se trata de uma forma ou de uma imagem ou de uma fantasia, mas de um significante, o significante do desejo." "As formações do inconsciente".
5. "O que é preciso reconhecer é a função do falo, não como objeto mas como significante do desejo, em todas as suas metamorfoses. Ibidem.
"Lacan: operadores da leitura", Américo Vallejo e Ligia C. Magalhães, Ed. Perspectiva
Falo: Lacan transforma a noção freudiana do falo no significante que, na situação edípica, assinala as funções da subjetividade. Na subjetividade da criança, o falo marca a presença do pênis, enquanto que, para a teoria, o falo é igual à carência e falta (manque) do pênis. Aquilo que surge como presente para a criança, de forma ilusória, é o que não está e nunca esteve: trata-se da presença de uma ausência, ou melhor, de uma falta.
Falta: esta noção surge na teoria lacaniana tendo por base uma crença.
"Presença de uma ausência": é a mais exata definição de significante
Representabilidade: na teoria lacaniana, o falo não é representável, não pertence à ordem das representações imaginárias, porém, como falo simbólico, funcionar como circulante na estrutura edípica, produzindo a variação de seus tempos na determinação das funções de seus personagens.
Falo imaginário: quando se fala de falo imaginário - imagem fálica - surge o tema da completude corporal, representação (?) que o sujeito faz de si mesmo, produzindo uma cristalização do eu mediante uma imagem totalizadora que antecipa sua imaturidade e falta de coordenação motora.
Objeto imaginário: a este "falo", Lacan denomina "objeto imaginário com que o sujeito se identifica", marcando assim a perfeição (não carência) narcisista onipotente da fase do espelho da criança, um dos pólos da dupla mãe fálica-narcisismo.
Filho: para a mãe, este mesmo falo (o filho) representa (na outra cena do inconsciente) outra coisa para seu desejo.
Entrecruzamento: o falo é o significante de entrecruzamento de dois desejos, articulação de duas ordens, transmissão de duas cadeias, possibilidade de circulação e intercâmbio.
Metáfora paterna: no terceiro tempo do Édipo, surge a operação da metáfora paterna, que, no simbólico (Outro) põe o Nome-do-Pai em substituição ao Desejo da Mãe e seu produto (sujeito narcisista), induzindo assim a significação fálica que faria emergir o indivíduo como sujeito barrado ($) pela separação consciente/inconsciente.
Falo imaginário: qualquer coisa que possa completar uma falta na subjetividade (corpo, pênis, dinheiro), a que é atribuído um "lugar de preferência" para o desejo do outro, Eu-ideal da relação dual narcisista.
Falo simbólico: não está caracterizado pela oposição presença/ausência, mas pela possibilidade de substituição, de circulação que possibilita dar e receber. "Este" falo se pode ter e perder (castração), mas não se pode ser. O falo marca a forma de organização, seja esta imaginária ou simbólica, que regula a estrutura do sujeito.
Mais definições de Falo (Laplanche e Pontalis, "Vocabulário")
- Representação (Ceci n'est pas une pipe) figurada do órgão masculino (Antiguidade greco-latina).
- Função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e inter-subjetiva, enquanto o termo pênis é reservado para designar o órgão na sua realidade anatômica.
- Essas duas definições são do "Vocabulário", de Laplanche-Pontalis.
- "Só em raras ocasiões encontramos o termo 'falo' nos escritos de Freud. Em contrapartida, na sua forma adjetiva, encontra-se em diversas expressões, principalmente em 'fase fálica'.
- Pode verificar-se na literatura psicanalítica contemporânea um emprego progressivamente diferenciado dos termos 'pênis' e 'falo', designando o primeiro o órgão masculino na sua realidade corporal e sublinhando o segundo o seu valor simbólico."
- A organização fálica , progressivamente reconhecida por Freud como fase de evolução da libido nos dois sexos, ocupa lugar central na medida em que é correlativa do complexo de castração no seu apogeu e domina a posição e resolução do complexo de Édipo.
- A anternativa que se depara ao indivíduo nessa fase cabe nestes termos: ter o falo ou ser castrado. [ Origens do desprezo do menino pela menina].
- Vemos que a oposição não reside aqui entre dois termos que designam duas realidades anatômicas, como o pênis e a vagina, mas entre a presença ou ausência de um único termo.
- Este primado do falo para os dois sexos é para Freud correlativo do fato de que a criança do sexo feminino ignoraria a vagina [O que coloca o problema das relações entre o sujeito e a realidade, ou sujeito e Real].
- Embora o complexo de castração assuma modalidades diferentes no rapaz e nela, a verdade é que nos dois casos ele se centra apenas em redor do falo, concebido como destacável do corpo.
- Um artigo como "As transposições da pulsão e especialmente do erotismo anal", Freud, S.E., XVII, 127-33, vem demonstrar como o órgão masculino se inscreve numa série de termos substituíveis uns pelos outros em "equações simbólicas" (pênis = fezes = filho = prenda (presente, dom) etc.), termos cujas características comuns [ daí a possibilidade de substituição numa equivalência simbólico-topológica] serem destacáveis do indivíduo e suscetíveis de circular de pessoa para pessoa.[Daí a afirmação de que "o falo circula"].
- Para Freud, o órgão masculino não é apenas uma realidade que poderíamos encontrar como referência última de toda uma série.
- A teoria do complexo de castração redunda em atribuir ao órgão masculino um papel prevalecente, desta vez como símbolo, na medida em que a sua ausência ou sua presença transforma [ papel transformador do símbolo] uma diferença anatômica em critério principal de classificação dos seres humanos[ Daí a questão da diferença sexual]
- E na medida em que, para cada indivíduo, esta presença ou esta ausência não é evidente, não é redutível a um dado puro e simples, antes, é o resultado problemático de um processo intra e inter-subjetivo (assunção pelo indivíduo do seu próprio sexo).
- É indubitavelmente em função deste valor de símbolo [ Daí a afirmação de que a psicanálise se dá num campo de valores. Dirá Lacan que "o estatuto do inconsciente é ético, e não ôntico".] que Freud, e de um modo mais sistemático a psicanálise contemporânea, usa o termo "falo";
- Referem-se então, mais ou menos explicitamente, ao uso deste termo na Antiguidade, em que designa a "representação" figurada, pintada, esculpida, etc., do órgão viril, objeto de veneração que desempenhava um papel central nas cerimônias de iniciação (Mistérios).
- Citação: "Nessa época recuada, o falo em ereção simbolizava o poder soberano, a virilidade transcendente mágica ou sobrenatural, e não a variedade puramente priápica do poder masculino, a esperança da ressurreição e a força que pode produzi-la, o princípio luminoso que nem tolera sombras nem multiplicidade e sustenta a unidade que brota eternamente do ser. Os deuses itifálicos Hermes e Osíris encarnam esta aspiração essencial." (Laurin, C, "Phallus et sexualité féminine", in La Psychanalyse, VII, Paris, P.U.F., 1964, 15.
- Que deveremos aqui entender por "valor simbólico"? Não se poderia atribuir ao símbolo falo uma significação alegórica determinada por muito lata que a queiramos (fecundidade, poder, autoridade, etc.). Por outro lado, não se poderia reduzir o que ele simboliza ao órgão masculino ou pênis tomado na sua realidade corporal. Por fim, tanto ou mais do que como símbolo (no sentido de uma representação figurada e esquemática do órgão viril), o falo reencontra-se como significação , como o que é simbolizado nas mais diversas representações.
- Freud assinalou na sua teoria do simbolismo que ele era um dos simbolizados universais ; julgou achar como tertium comparationis entre o órgão viril e o que o representa o traço comum de ser uma pequena coisa (das Kleine). (Freud, "Die Traumdeutung", S.E., V, 362-3).
- Mas, na linha desta observação, é lícito pensar que o que caracteriza o falo e se encontra nas suas diversas metamorfoses figuradas é ser um objeto destacável, transformável - e neste sentido, objeto parcial. ( Lacan, "Les formations de l'inconscient", recensão de J.-B. Pontalis in "Bulletin de Psychologie", 1958, passim.)
- O fato, apreendido por Freud deste "A interpretação do sonho" (S.E., V, 366 e 394), e largamente confirmado pela investigação analítica, de que o indivíduo como pessoa total pode ser identificado ao falo não infirma a idéia precedente: nesse momento é mesmo uma pessoa que é assimilado a um objeto que pode ser visto, exibido, ou ainda circular, ser dado e recebido.
- Freud demonstrou, nomeadamente no caso da sexualidade feminina, como o desejo de receber o falo do pai se transforma em desejo de ter um filho dele.
- De resto, a propósito deste exemplo, podemos perguntar se estamos habilitados a estabelecer na terminologia psicanalítica uma distinção radical entre pênis e falo. O termo Penisneid, Inveja do pênis, concentra uma ambigüidade que talvez seja fecunda e que não poderia ser dissipada por uma distinção esquemática, por exemplo, entre o desejo de fruir do pênis real do homem no coito, e o desejo de ter falo (como símbolo de virilidade).
- Lacan tentou recentrar a teoria psicanalítica em torno da noção de falo como "significante do desejo". O complexo de Édipo, tal como por ele é reformulado, consiste numa dialética cujas principais alternativas são: ser ou não ser o f alo, tê-lo ou não o ter - e cujos três tempos se centram no lugar ocupado pelos falo no desejo dos três protagonistas. (Ver "As formações do inconsciente", Lacan).
Fase fálica
- Fase de organização infantil da libido que vem depois das fases oral e anal caracterizada por uma unificação das pulsões parciais sob o primado dos órgãos genitais.
- Mas, a criança, de sexo masculino ou feminino, só conhece nesta fase um único órgão genital, o órgão masculino, e a oposição dos sexos é equivalente a oposição fálico-castrado.
- A fase fálica corresponde ao momento culminante e ao declínio do complexo de Édipo. O complexo de castração é aqui predominante.
- A noção de fase fálica é tardia em Freud, pois só em 1923 ("A organização genital infantil") aparece explicitamente. Podemos também empregar os termos "período" ou "posição" fálica, que sublinham que se trata aqui de um momento intersubjetivo integrado na dialética do Édipo, mais do que uma fase propriamente dita da evolução libidinal.
- A fase fálica é preparada pela evolução das idéias de Freud a respeito dos modos sucessivos de organização da libido e pelos seus pontos de vista quanto ao primado do falo.
- Organização da libido: Freud começou (1905) por ver na falta de organização da sexualidade infantil o que a opunha à sexualidade pós-pubertária: a criança não sai da anarquia das pulsões parciais senão depois de assegurado, com a puberdade, o primado da zona genital.
- A introdução das organizações pré-genitais anal e oral (1013,1915) ("Três ensaios" e aditamentos, S.E., VII, 197-8), põe implicitamente em causa o privilégio, até ai atribuído à zona genital, de organizar a libido, Mas não se trata ainda senão de "rudimentos e fases precursoras" de uma organização em sentido pleno.
- "A combinação das pulsões parciais e a sua subordinação sob o primado dos órgãos genitais, ou não se realizam, ou realizam-se apenas de forma muito incompleta." (Freud).
- Quando Freud introduz a noção de fase fálica, reconhece a existência desde a infância de uma verdadeira organização da sexualidade, muito próxima da do adulto, "... que merece já o nome de genital, onde se encontra um objeto sexual e uma certa convergência das tendências sexuais sobre esse objeto, mas que se diferencia num ponto essencial da organização definitiva por ocasião da maturidade sexual:com efeito, ela apenas conhece uma única espécie de órgão genital, o órgão masculino." ( "Três ensaios", p. '99).
- Primado do falo: esta idéia já está prefigurada em textos muito anteriores a 1923. Desde os "Três ensaios", de 1905, que se encontram duas teses:
a) A libido é "natureza masculina, tanto na mulher como no homem". S.E. , VII, 219.
b) "A zona erógena diretriz na criança de sexo feminino é localizada no clitóris, que é o homologo da zona genital masculina (glande). S.E., VII,220, e também em "Aus den Anfängen der Psychoanalyse, 1887-1902, carta de 14-ll-1897,Ing., 229-235.
- A análise do Pequeno Hans, onde se delineia a noção de complexo de castração, põe em primeiro plano para o rapaz a alternativa: possuir um falo ou ser castrado.
- Por fim, o artigo sobre "As teorias sexuais infantis", 1908, embora encare, tal como os "Tres ensaios, a sexualidade do ponto de vista do menino, sublinha o interesse singular que a menina tem pelo pênis, a sua inveja deste e a sua sensação de ser lesada em relação ao menino.
Bibliografia
Encontramos o essencial da concepção freudiana da fase fálica em três artigos:
- "A organização genital infantil", 1923.
- "O declínio do complexo de Édipo", 1924.
- "Algumas consequencias psíquicas da diferença anatômica dos sexos",1925.
Esquematização da fase fálica
- Do ponto de vista genético, o par de opostos atividade-passividade que predomina na fase anal transforma-se no par fálico-castrado. É só na puberdade que se edifica a oposição masculinidade-feminilidade.
- Relativamente ao complexo de Édipo, a existência de uma fase fálica tem um papel essencial: o declínio do complexo de Édipo, no caso do menino, é condicionado pela ameaça de castração, e este deve a sua eficácia , por um lado, ao interesse narcísico que o rapaz tem pelo seu próprio pênis, e, por outro, à descoberta da ausência de pênis na menina.
- Existe uma organização fálica na criança de sexo feminino. A verificação da diferença entre os sexos suscita uma inveja do pênis, que acarreta, do ponto de vista da relação com os país, um ressentimento para com a mãe, que não deu o pênis, e a escolha do pai como objeto de amor, na medida em que ele pode dar o pênis ou o seu equivalente simbólico, o filho. A evolução da menina não é, pois, simétrica à do menino ( para Freud a menina não tem conhecimento da própria vagina). Elas são ambas igualmente centradas em torno do órgão fálico.
Repercussões
A significação da fase fálica, principalmente na criança de sexo feminino, deu lugar a importantes discussões na história da psicanálise. Autores como K. Horney, M. Klein, e E. Jones, que admitem a existência, na menina, de sensações sexuais imediatamente específicas (nomeadamente, um conhecimento primário intuitivo da cavidade vaginal), são levados a ver na fase fálica apenas uma formação secundária de caráter defensivo.
Inveja do pênis
"Vocabulário", Laplanche e Pontalis.
Definição: Elemento fundamental da sexualidade feminina, e mola real da sua dialética.
A inveja do pênis nasce da descoberta da diferença anatômica entre os sexos: a criança do sexo feminino sente-se lesada relativamente ao menino e deseja possuir um pênis como ele (complexo de castração). Depois, no decorrer do Édipo, a inveja do pênis assume duas formas derivadas: a) desejo de adquirir um pênis dentro de si (principalmente sob a forma de desejo de ter um filho) e b) desejo de fruir do pênis no coito. A inveja do pênis pode redundar em numerosas formas patológicas ou sublimadas.
- A noção de inveja do pênis assumiu cada vez maior importância na teoria de Freud, à medida que ele ia sendo levado a especificar a sexualidade feminina, primeiro implicitamente considerada simétrica da do menino.
- A primeira edição dos "Três ensaios", 1905, centrados sobre a evolução da sexualidade do menino, não contêm qualquer referência à inveja do pênis.
- A primeira alusão só aparece em 1908, no artigo sobre "As teorias sexuais infantis", onde Freud aponta o interesse que a menina tem pelo pênis do menino, interesse que é "... orientado pela inveja (Neid). [...] Quando ela exprime este desejo: "gostava mais de ser menino" - sabemos qual é a falta que este desejo procura remediar." S.E., IX, 218.
- A expressão "inveja do pênis" parece já admitida no uso analítico quando Freud a menciona em "Introdução ao narcisismo", 1914, S.E., XIV, 92, para designar a manifestação do complexo de castração na menina.
- Em 1917, com o artigo "As transposições da pulsão, e especialmente do erotismo anal", Freud já não designa apenas por "inveja do pênis" o desejo feminino de ter um pênis como o menino, mas adianta-lhe as principais metamorfoses: a) desejo do filho segundo a equivalência simbólica pênis-filho; e b) desejo do homem enquanto "apêndice do pênis". S.E., XVII, 129.
- A concepção freudiana da sexualidade feminina confere um lugar essencial à inveja do pênis na evolução psicossexual para a feminilidade, que supõe uma mudança de zona erógena (do clitóris para a vagina) e uma mudança de objeto (o apego pré-edipiano à mãe dá lugar ao amor edipiano ao pai).
- Nesta mudança, o complexo de castração e a inveja do pênis em diversos níveis um papel de transição:
a) Ressentimento para com a mãe, que não muniu a filha de pênis;
b) Depreciação da mãe, que aparece assim como castrada;
c) Renúncia à atividade fálica (masturbação clitórica), pois a passividade assume preponderância;
d) Equivalência simbólica entre o pênis e o filho.
- "O desejo (Wunsch) com que a filha se volta para o pai é, indubitavelmente, na sua origem o desejo do pênis que a mãe lhe recusou e que ela espera agora obter do pai. Todavia, a situação feminina só se estabelece quando o desejo do pênis é substituído pelo desejo do filho, e o filho, segundo a velha equivalência simbólica, toma o lugar do pênis." "Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die Psycohanalyse", S.E., XXII,128.
- O "complexo de masculinidade" e os sintomas neuróticos da mulher são remanescentes da inveja do pênis no caráter feminino. Quando se fala de inveja do pênis se alude a estes restos adultos que a psicanálise encontra sob as formas mais disfarçadas.
- Freud sempre sublinhou como a inveja do pênis, debaixo das aparentes renúncias, persistia no inconsciente, e indicou, num dos seus últimos escritos ("Análise terminável e interminável", 1937, S.E., XXIII, 250-1), o que ela podia até oferecer de irredutível à análise.
- A expressão "inveja do pênis" apresenta uma ambigüidade que E. Jones sublinhou e tentou dissipar distinguindo três sentidos: a) O desejo de adquirir um pênis, normalmente engolindo-o, e de o conservar no interior do corpo, muitas vezes transformando-o num filho; b) O desejo de possuir um pênis na região clitórica; c) O desejo de fruir de um pênis no coito." ("The Phallic Fase", in "Papers on Psychoanalysis", 1950, 469.
- Esta distinção, por muito útil que seja, nem por isso nos deve levar a considerar estranhas umas às outras estas três modalidades da inveja do pênis. Porque a concepção psicanalítica da sexualidade feminina tende precisamente a descrever quais as vias e equivalentes que as ligam entre si. Em certas passagens de Freud encontram-se duas expressões, inveja (Neid) e desejo (Wunsch) do pênis, sem que se possa estabelecer entre elas uma diferença de emprego (é o caso, por exemplo, das "Novas lições de Introdução à Psicanálise", 1932, S.E., XXII,128-30.)
- Diversos autores - K. Horney, H. Deutsch, E. Jones, M. Klein - discutiram a tese freudiana que faz da inveja do pênis um dado primário, e não uma formação construída ou utilizada secundariamente para afastar desejos mais primitivos. Sem pretender resumir esta importante discussão, notemos que o fato de Freud ter sustentado a sua tese encontra o seu motivo na função, central para os dois sexos, por ele atribuída ao falo.