CONTEXTUALIZAÇÃO DO ARTIGO
Os artigos da Metapsicologia, datados de 1915, principalmente As Pulsões e suas vicissitudes, O Inconsciente e O Recalque vão unir a teoria do inconsciente com a teoria pulsional, inaugurando assim uma nova tópica freudiana. As tópicas freudianas são um modo de representação do funcionamento do aparelho psíquico.
A primeira tópica divide o aparelho psíquico em consciente, pré-consciente e inconsciente. A instância inconsciente é constituída de elementos recalcados que se recusam a chegar à instância pré-consciente-consciente. Tais elementos são representantes pulsionais que obedecem aos mecanismos do processo primário. No processo primário, a energia psíquica escoa-se livremente, passando sem barreiras de uma representação para outra, segundo os mecanismos de condensação e deslocamento. Já no sistema Pcs/Cs é o processo secundário que opera e a energia psíquica está ligada antes de escoar de forma controlada e a satisfação é postergada.
Na segunda tópica, após 1920, a divisão do aparelho psíquico é constituída pelo eu, isso e o supereu ou id, ego e superego. O termo inconsciente qualifica a instância do isso e aplica-se em parte às do eu e do supereu. Esta segunda tópica não substitui a primeira, de modo que os conceitos de isso, eu, supereu não recobrem os conceitos de inconsciente, pré-consciente e consciente da primeira tópica.
É nesse momento de transição que se situam os artigos que iremos abordar.
O INCONSCIENTE (Das Unbewusst-1915)
A série sobre os artigos da metapsicologia é considerada a mais importante de todos escritos da teoria de Freud e o ensaio sobre o inconsciente, escrito nos dias 4 a 23 de abril, é o seu ponto culminante. O interesse de Freud pela suposição da existência do inconsciente não passava pelos fundamentos filosóficos, mas tinha um caráter prático capaz de explicar ou mesmo descrever a grande variedade de fenômenos com que ele se defrontava na clínica.
No artigo O Inconsciente, Freud inicia justificando a suposição do conceito de inconsciente como necessária e legítima.
É necessária porque: os dados sobre a consciência tem um grande número de lacunas; a existência de outros atos como: as parapraxias, sonhos que a consciência não explica ; sintomas patológicos, por exemplo, comportamentos obsessivos; idéias estranhas e conclusões inesperadas cuja origem desconhecemos. Tanto nas pessoas sadias, quanto nas doentes ocorrem com freqüência atos psíquicos que podem ser explicados apenas pela pressuposição da existência de outros atos, dos quais a consciência não apresenta prova ou evidências.
Isso nos faz refutar o argumento de que tudo que ocorre na psique necessariamente é do conhecimento do nosso consciente devido à existência de idéias latentes -o consciente só abarca um conteúdo psíquico pequeno, de modo que a maior parte daquilo que chamamos de conhecimento consciente se encontra por longos períodos em estado de latência; não se sustenta a idéia de uma equivalência entre o psíquico e o consciente, para que isso se sustente teríamos de desconhecer os fatos da patologia e tomar os atos falhos das pessoas normais por meros acasos, além de acreditar que os sonhos nada significam.
-É legítima porque ao postularmos sua suposição, estamos produzindo artifícios que ajudam a entender como nossa psique opera e lida com questões, como: 1)a consciência transmite a cada um de nós tão-somente o conhecimento a respeito dos nossos próprios estados psíquicos; 2)todos os atos e manifestações notados em si mesmo, e de difícil compreensão, devem ser julgados como se pertencessem a outrem. 3)a experiência nos mostra que, quando se trata de outras pessoas, o ser humano sabe interpretar os atos latentes muito bem e consegue inseri-los perfeitamente no encadeamento do mundo psíquico alheio.
Rejeitar a hipótese da existência do inconsciente tornaria necessário supor uma segunda consciência em nós ou mesmo outras consciências. Essa hipótese apresenta objeções: alguns processos latentes são estranhos a nós e contrários aos atributos da consciência; como o físico, o psíquico não é o que nos parece ser.
Existem atos psíquicos pertencentes a categorias distintas umas das outras, mas que podem compartilhar a mesma característica de serem inconscientes. O inconsciente abrange: 1. atos meramente latentes, isto é provisoriamente conscientes; 2. processos recalcados, que se fossem tornados conscientes, contrastariam com o restante do processo consciente.
Freud, ao se perguntar como evitar a confusão com os termos inconsciente e consciente, e em que se baseia a diferenciação dos sistemas, propõe que a diferenciação na escrita com o uso das abreviações pelas letras Ics e Cs. Então o sistema Ics é essencialmente um sistema psíquico que se contrapõe a outro sistema psíquico Pcs/Cs. A divisão da psique em consciente e inconsciente é a premissa fundamental da psicanálise; somente isso torna possível a psicanálise entender os processo patológicos na vida mental.
Para o senso comum, o termo "inconsciente " é adjetivado e designa o que está fora da consciência. Freud vai além e descreve dois sentidos: o sentido descritivo (latente) que indica o que está fora do campo atual da consciência sem fazer a distinção entre os dois sistemas pré-consciente/consciente e inconsciente e o sentido tópico queindica a constituição do sistema por conteúdos recalcados, que não podem ter acesso ao sistema pré-consciente/consciente.Na primeira tópica a censura se situa entre os sistemas Ics e Pcs/Cs.
Neste ponto, temos que ressaltar a noção de recalque: o conceito de inconsciente advém da teoria do recalque.
O recalque é um processo que ocorre na fronteira entre os sistemas Ics. e Pcs/(Cs) e que opera sobre as idéias que aí se encontram. É a operação que afasta da consciência os conteúdos que causam sofrimento ao sujeito - fundando o inconsciente, como já foi dito. Mas o inconsciente não se reduz ao recalcado.. O núcleo do inconsciente é formado por conteúdos filogenéticos e protofantasias. As fantasias primitivas ou originárias são definidas como estruturas fantasmáticas, vida intra-uterina, castração, sedução, cena originária, independente das experiências pessoais do sujeito.
É importante ressaltar que além de ser instituído pela ação do recalque, o inconsciente é constituído por representações da pulsão.
Mas, como se dá a passagem do processo Ics para o Pcs/Cs? Freud teoriza que
um ato psíquico passa por duas fases, entre as quais se interpõe uma censura:
Na primeira fase , o ato psíquico encontra-se em estado inconsciente e pertence ao sistema Ics.
Se for rejeitado pela censura, é recalcado e permanece inconsciente
Se for aceito pela censura, entrará na segunda fase e pertencerá ao segundo sistema(Cs.)
Porém, ainda não é consciente, embora seja capaz de se tornar consciente e essa capacidade de se tornar consciente dá a ele a qualidade de "pré-consciente". O sistema Pcs. participa das características do sistema Cs.
É importante ressaltar que a censura rigorosa exerce sua função no ponto de transição do Ics. para o Pcs.(ou Cs.).
Freud apresenta duas hipóteses para tratar da diferença que surge quando uma representação pertencente ao Ics se torna consciente:
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Hipótese de dupla inscrição - a transposição do Ics para Pcs/Cs, seria um novo registro? A nova inscrição estaria situada em uma nova localidade psíquica, que a partir de então passaria a existir em paralelo ao antigo registro Ics e conseqüentemente implicaria na separação tópica dos sistemas Ics/Cs e que a idéia possa estar simultaneamente presente em dois lugares do aparato psíquico; e mais : que essa idéia , sem a inibição imposta pela censura, avance regularmente de uma posição para outra, eventualmente sem perder seu primeiro lócus.
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Hipótese funcional ou econômica
Outra questão é motivo de estudos para Freud: os sentimentos também são inconscientes?
Há representações mentais (Vorstellungen) conscientes e inconscientes, mas será que há sentimentos e sensações inconscientes? pergunta Freud. A questão da oposição Ics/Cs não se aplicaria nas pulsões. Uma pulsão nunca pode tornar-se objeto da consciência, isto só é possível para a idéia (Vorstellung) que representa essa pulsão na psique. Mesmo no inconsciente, a pulsão só pode ser representada por uma idéia, mas não os sentimentos, sensações e afetos.
Podemos perceber, num primeiro momento, uma moção de afeto, mas não identificá-la corretamente. Isto quer dizer, que pode ser mal interpretada porque: a)a idéia que representa a moção sofreu um recalque. Assim como a moção ideacional foi tirada de cena, a moção de afeto para poder veicular-se, foi obrigada a estabelecer uma nova conexão com outra representação mental, que agora passa a representá-la.
A utilização da expressão "sentimentos/afetos inconscientes" refere-se aos destinos:
- Ou é transformado numa cota de afeto de outra qualidade (sobretudo em ansiedade);
Os afetos reprimidos é que são chamados de inconscientes, mas diferentemente da idéia Ics que continua existindo como formação real no sistema ICS após o recalque, enquanto no mesmo local, em vez do afeto Ics há apenas um ponto de ancoragem potencial que não pôde desenvolver-se.
Toda a diferença origina-se no fato de que idéias consistem em cargas investidas - um processo de descarga. No processo de recalque o afeto se separa de sua idéia e ambos seguem seu destino separadamente.
Após a descrição dos sistemas e seu funcionamento,Freud enumera as características do inconsciente:
- O núcleo do Ics. consiste em representações pulsionais desejosos de escoar suas descargas de investimentos. Impulsos de desejos que coexistem coordenados entre si, lada a lado, sem se influenciarem mutuamente e nem se contradizerem.
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- Não há lugar para negação, para dúvidas, nem diferentes graus de certezas.
- Quanto às intensidades de cargas de investimento presentes no inconsciente, só existem conteúdos com maior ou menor força e utiliza-se dos processos de deslocamento (uma idéia ou representação pode passar toda a soma de carga de investimento para outra idéia) e condensação (a idéia ou a representação pode apropriar-se da carga de investimento de várias idéias). Os processos de condensação e deslocamento caracterizam o processo primário psíquico, mas opera sobre os elementos pertencentes ao sistema Pcs (processo secundário) e provoca um efeito cômico, o riso.
- São atemporais - não são cronologicamente organizadas, não levam em consideração a realidade, por isso subordinadas ao Princípio do Prazer. Há uma substituição da realidade externa pela realidade psíquica.
-Os processos inconscientes só se tornam conhecidos por nós sob condições de sonhos e neuroses.
Já os processo do sistema Pcs:
- exibem uma inibição da tendência das idéias catexizadas à descarga;
- Cabe a ele efetuar a comunicação entre os diferentes conteúdos, a fim de dar-lhes uma ordem no tempo e estabelecer uma censura.
- E o principio de realidade que opera no Pcs.
O trânsito entre os dois sistemas não se limita ao ato de recalque, pelo qual p Pcs lograva jogar no abismo do Ics tudo aquilo que lhe parece incômodo. O Ics não é inativo e é capaz de evolução e de manter uma série de outras relações com o Pcs, entre elas a de cooperação.