ANÁLISE HOJE
Roberto Mello
A amiga me pergunta: faz sentido a análise, hoje? A pergunta é retórica, ela sabe que sim, ela faz análise, e, como todo analisante, quer dar testemunho de sua eficácia. Primeiro efeito, a recuperação da alegria de viver, sentimento de expansão, que faz o sujeito não mais agüentar ficar sozinho no seu canto, cabisbaixo, ensimesmado, quer mais é contar para todo mundo que (sabe Deus o quê). Não é obrigatório ficar alegre, por decreto, como impõe o pragmatismo globalizante do gozar a qualquer preço, mas que é bom é, e minha amiga sabe disso.
Ela também sabe que não é proibido falar do seu sofrimento, como sugere o mesmo pragmatismo que faz com que as pessoas se envergonhem de sua tristeza, de seus males psíquicos. Pragmatismo que reduz o campo de valores ao valor único da eficiência, que vai transformando Pindorama no país da delicadeza perdida, Bye bye Brasil na música, Queridos amigos só mesmo na tv, pois o Sinal fechado, que canta Paulinho da Viola continua mais atual que nunca, em tempos do despudor do Big brother. Amigo só vale se for aliado no jogo do poder. Quem agüenta? Não é para agüentar. Adoecemos, o que é uma maneira de interrogar a morte, pois se não se pode falar com o principal, apela-se para o secundário. Mas a psicanálise nos mostra que essa não é a única maneira. Ao contrário de Hesíodo, para quem os deuses castigavam os homens enviando-lhes doenças que agiam em silêncio, Freud descobriu que há doenças que falam, e que falar constitui um modo da cura.
Nem os médicos dispensam a fala do paciente na elaboração dos seus diagnósticos, e os mais esclarecidos disso não escarnecem, sabendo que a análise, para além dos eventuais efeitos terapêuticos, é também um lugar do humano interrogar a dúvida, o engano, a ilusão e a verdade. Minha amiga é sofisticada: pergunta sobre o sentido da análise, num mundo em que se revela que o sentido não está nele inscrito obrigatoriamente. Se a vida não tem sentido, podemos doá-lo. Também sabe que o sentido é sexual, desde Freud, o que não impede que os significados sejam múltiplos. Sabe da importância da linguagem. E sabe ainda que uma nova erótica se abre no campo do gozo descoberto por Lacan, o que permite repensar a identidade feminina, não mais reduzida à costela de Adão. Fazer amor devagar, envelhecer devagar. Quem sabe, assim podemos passar da guerra para a comédia dos sexos, mantendo o sorriso irônico ante a exigência de um parceiro ser tudo na vida do outro. Mas isso é apenas uma aposta.
e-mail: fazfreud@terra.com.br
Publicado, com alguns cortes, no jornal O Popular, em 2-3-2008. Roberto Mello é psicanalista