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TRIBUTO A FREUD
Por Roberto Mello

"Segura ele"

 

Roberto Mello

 

 

     "Pouco me importa se a psicanálise está fora de moda, ela salvou minha vida", disse-me um analisante que logo virou psicanalista. É assim. Os que passaram por uma análise dão seu testemunho, independente dos jogos de poder do discurso universitário, que, no dizer de Derrida, finge aceitar a invenção de Freud para torná-la inoperante. Freud está na base de todas as terapias modernas, quer o aceitem ou não. Nesse sentido, como dizia Lacan, Freud é insuperável, ao lado de alguns outros, Platão, Descartes, Marx. Eles morderam alguma coisa do Real. É preciso medir-se com Freud, instaurador de uma nova discursividade, segundo Foucault. Depois dele, o mundo deixou de ser o mesmo.

 

     Hesíodo dizia que Deus castigava os homens mandando-lhes doenças que agiam em silêncio. Freud descobriu que há doenças que falam. Foi preciso que as histéricas dissessem: "cala a boca, Professor", para que a cura ocorresse, a cura pela palavra. Foi escutando as histéricas que Freud abandonou a hipnose, a catarse, e a doutrinação (ainda hoje travestida em "Freud explica") e inventou a psicanálise como escuta do desejo inconsciente pela associação livre. Foi aí que descobriu a resistência, os chamados pacientes-impacientes querem e não querem curar-se, ao mesmo tempo. Era preciso mais do que a lógica formal de Aristóteles para entender a persistência do sintoma. Era preciso dispor de uma sensibilidade apurada, o senso do paradoxo, para lidar com o conflito psíquico. Afinal, não se abandona um jeito de gozar assim, de uma hora para outra, com um tapinha nas costas, ou um jeito benevolente e exortativo, mesmo que esse gozo seja um suplício.

     O "Homem dos Ratos", uma das cinco grandes psicanálises freudianas, paradigma da neurose obsessiva (hoje, mudou de nome, toc, transtorno obsessivo-compulsivo, tocado até por lobotomia proposta por cirurgiões americanos, que mundo o da medicalização da existência), desconhecia o gozo que experimentava ao narrar a Freud a antiga tortura oriental de introduzir um rato no ânus dos prisioneiros, tortura relatada por um certo capitão (o Homem dos Ratos era um tenente). O paciente curou-se, e morreu na guerra, para tristeza de Freud.

     Já não se fala em histeria - como o romance do caso Dora - tornada irrelevante pela psiquiatria, ainda que Lacan tenha advertido que ela traz a questão sobre o enigma da feminilidade, e esteja na base da construção da ciência. A ciência é histérica, acredita que chegará ao saber absoluto. O caso Schreber, o célebre paranóico, mudou a investigação psiquiátrica, que se confrontou com a afirmação freudiana de que o delírio é uma tentativa de cura, tem um grão de verdade, uma base ainda que mínima na realidade, ampliando os limites para o entendimento da psicose. O caso da fobia do Pequeno Hans inaugurou a psicanálise com crianças. O caso do Homem dos Lobos indicou a dimensão narcísica nas escolhas libidinais de qualquer sujeito.

     É fácil dizer que Freud está superado. Menos fácil é decidir se queremos o que desejamos. A psicanálise, desde Freud, é uma prática teorizada que se dá num campo de valores. Não está ao alcance de todos, mas não pelo argumento de que é elitista e custa caro: todas as instituições analíticas têm clínica social para atender os mais pobres de dinheiro. Não é para todos por exigência ética: enfrentar a verdade do desejo inconsciente, bem dizê-lo, e concluir pela responsabilidade de aceitá-lo ou não.Sem álibis.

     Freud poderia ter sido um pesquisador médico de sucesso. Descobriu as sinapses, as células que vieram a se chamar de neurônios. Brigou com Marta, sua noiva, em quem botou a culpa por ter de acompanhá-la numa viagem, o que retardou a publicação de suas descobertas do uso cirúrgico da cocaína e de suas propriedades anestésicas. Carl Koller foi mais rápido. Muito à frente do seu tempo, Freud publicou em 1891 um estudo sobre as afasias , propondo uma abordagem funcional, e não apenas neurofisiológica, dos distúrbios de linguagem. Já então criticava a doutrina das "localizações cerebrais", abrindo caminho para o associacionismo que resultou na noção de "aparelho psíquico", valorizado mais tarde por Lacan como sendo a própria linguagem. Daí uma clínica: o sintoma também é feito de linguagem e se mostra sensível à sua influência. Os antigos gregos sabiam: a palavra é pharmacon, remédio ou veneno.

     O conceito de um inconsciente atemporal, com valor de sobredeterminação das condutas humanas, e incognoscível, tirou-nos da sonolência, da ilusão da consciência. Ainda não foram examinadas suas conseqüências, por mais que certa concepção de ciência tente excluir o sujeito, o que resulta numa clínica sem ética. Até mesmo entre psicanalistas o dito de Freud suscita polêmica e divisões: o que será a pulsão de morte? O que trabalha contra a cura? O falante será mesmo incurável, justamente porque fala? Pouco importava a Freud que o futuro encontrasse o gene da neurose, em alguma área do cérebro. O triunfalismo do mapeamento genético baixou um pouco a cabeça: o gene não age só. Não nos dispensa da responsabilidade por nossa vida, a parte que nos cabe nesse latifúndio, para além dos tranqüilizantes. Teremos menos a angústia de castração, ficaremos menos obrigados a assumir nossa herança de homens no encontra faltoso com as mulheres? Está próximo o dia em que a ciência tornará sem lugar a paternidade? Deus é Pai, dizia Freud, e não é por acaso que a religião ressurge com toda força, a força do retorno do recalcado, injetando significado na existência. Freud se indagava se um dia a ciência acabaria com a morte, tornando-nos definitivamente imortais. Suportaríamos a vida eterna, se em nenhum lugar, nem no microcosmos, nem no macrocosmos existe a marca definitiva da felicidade humana, no dizer de Freud? Pessimismo ou senso trágico da vida? Tanto faz, para um homem que passou sua vida no esforço dedicado de aliviar a dor, de reduzir o sofrimento do semelhante, mesmo que ficasse escandalizado com o mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Mas onde, o semelhante?

 

                                                                         Roberto Mello é psicanalista.

 

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