Tributo a Horus Vital Brazil
Lógica, retórica e poética do inconsciente
Resumo e comentário de "O sujeito da dúvida e a retórica do inconsciente'
Roberto Mello
Muito se escreveu sobre a ambigüidade de Freud em relação à filosofia, mas poucos se dedicam a mostrar uma relação produtiva entre filosofia e psicanálise, mantendo-se as diferenças entre a pretensão de um saber totalizante na filosofia em oposição ao reconhecimento de um inconsciente incognoscível, indicador da verdade parcial do desejo, por parte da psicanálise, embora ambas estejam associadas ao pensamento crítico da modernidade. A meu ver, Horus foi um desses poucos.Francamente otimista quanto à possibilidade de um diálogo produtivo, o lugar teórico de onde falava não deixou de apontar as questões do sujeito e do real como temas comuns da psicanálise e da filosofia, na interseção em que se tocam e se separam ao abordar o fenômeno do conhecimento e do desconhecimento originário do falante.
Seu trabalho, na forma de ensaios, mantém-se rigorosamente nessa interseção, adotando uma escrita argumentativa e interrogativa, apelando para a crítica e para o que chama de "competência dialógica" do leitor, um chamamento, uma exortação ao que há de fecundo numa prática de alteridade, que reconhece os achados e descobertas na transação com o Outro. Um apelo dirigido ao leitor, para que reconheça a possibilidade de ele mesmo dar sua contribuição, fazendo uma leitura sempre em crise de entendimento, não conclusiva, não admitindo a palavra final, o fechamento de qualquer discurso. Estaria aí a possibilidade de invenção de um estilo. Horus sustentava que a escrita argumentativa e interrogativa era a mais legítima para a psicanálise, desenhada por uma prática de alteridade essencialmente interpretativa. Parece-me, então, que sua proposta incluía uma espécie de "desparanoização" no trato de questões que envolvem saber, não-saber, conhecimento, desconhecimento. Por isso, ele se mantinha bem-disposto na luta que desfaz a equação saber-poder, o que para mim, estudante de filosofia, resultava em alívio, como se o cérebro pudesse estar bem oxigenado.
Horus falava de uma filosofia que assimilou o impacto da crítica de Freud, que denunciou os erros do consciencialismo, uma filosofia que já não "mantém a ilusão de atingir uma imagem do mundo coerente e sem falhas" (Freud). E também de uma psicanálise que reconhece a riqueza da contribuição do pensamento crítico da modernidade filosófica, de uma psicanálise que se expõe à crítica de seus pressupostos filosóficos, à crítica das ideologias do desejo, que, segundo Horus, "determinam a multiplicidade de teorias clínicas, simplesmente indutivas, que fragmentam o movimento psicanalítico." Ao valorizar a razão crítica, que mantém a dúvida na questão do sujeito do conhecimento, que não despreza a história, que desconstrói a metafísica, que se identifica como razão ocidental desde o fim do século XIX, no momento da modernidade, Horus aceita o relativismo do conhecimento, insistindo na importância de um determinismo que não nega o acaso, nem a contingência da história. A razão crítica, no dizer de Horus, resiste à tentação de transformar idéias em sistemas conceituais conclusivos e acabados.
E foi pela liberdade de pensar, mantendo-se na posição de uma razão crítica que Horus tomou partido em questões polêmicas. A razão crítica, segundo Horus, revaloriza a hermenêutica (Gadamer), tornada desprezível pelo lacanismo, depois da briga que separou Lacan, de um lado, e Paul Ricoeur, de outro. A leitura de Horus não despreza o valor da hermenêutica da suspeita, aquela que une, para além das aparências, o questionamento de pensadores da linhagem de Nietzsche, Marx e Freud. Pela razão crítica se definiram as chamadas ciências humanas como ciências conjecturais, em oposição aos sistemas teóricos hegemônicos do "discurso universitário", no dizer de Lacan. Porque valorizava as primeiras contribuições de Lacan, no tempo em que definia o falante marcado pela "falta-a-ser", bem antes das especulações sobre o "ser-da-falta" (leitura desenvolvida por Juranville), Horus se mostrava à vontade para apontar os excessos de teorizações que arrastaram os analistas para o jogo de poder do "discurso universitário", afastando-os do chão da clínica.
Ciência conjectural, a psicanálise é entendida por Horus como uma prática teorizada, apoiada numa ética de renúncia para desfazer a equação saber-poder, reconhecendo-se como clínica da alteridade, investigando os fenômenos do psiquismo no contexto de um campo de valores, um campo intersubjetivo marcado pela singularidade da experiência.
Ainda hoje, ouço a sua voz insistindo enfaticamente que a psicanálise se realiza numa prática interpretativa de descoberta, considerando o ato interpretativo da decifração como ato simbólico, singular, reiterando o "valor interpretativo" de um ato polêmico, introduzido por Lacan na clínica, o que se refere à problemática do tempo e do corte da sessão, tomando partido num debate em que a "função da pressa" era apontada como "a pressa do analista'. Ao marcar rigorosamente as diferenças entre psicanálise e psicoterapias, Horus não desqualificava os resultados obtidos por estas últimas, embora criticasse a chamada "psicologia do ego", que pretendeu uma aplicação universal da psicanálise, à luz da concepção filosófica e ideológica do pragmatismo americano. Horus denunciava essa deformação da obra freudiana, acusando-a de negar que "o desejo inconsciente é indestrutível e o conflito permanente." Cito suas palavras: "É essa distorção do conceito de inconsciente que leva muitos psicanalistas a praticar cada vez menos a decifração no ato interpretativo, fazendo da psicanálise uma psicoterapia que se vale mais da sugestão e da "direção da consciência"; num exercício do poder de influência que o fenômeno transferencial confere ao psicanalista."
À essa influência excessiva da filosofia não teria escapado o próprio Lacan, ainda que ele se referisse à sua posição como "anti-filosofia". Horus cita a tese de Juranville em "Lacan e a filosofia" e não deixa de criticá-la: "A teoria do 'significante puro', do significante isolado como entidade, é extraída por Juranville dos escritos de Lacan, numa tentativa de referir a contribuição de Lacan a uma "filosofia" que nega a psicanálise como prática social. Ele diz que Lacan "sublinha o significante puro" (p. 328) que escapa à "negatividade" do significante, não se podendo reconhecer mais que o significante isolado "não tem nenhum sentido", e se associa a uma verdade totalizante com ressonâncias metafísicas. Essa exegese filosófica de Juranville não diferencia a primeira contribuição de Lacan quando ele nos fala da "falta-a-ser", e enfatiza a sua teorização posterior que se refere ao "ser-da-falta". Horus propõe substituir a noção de "significante puro" pela noção de Lévi-Strauss, que Mehlman valoriza, do "significante flutuante".
As implicações da leitura de Horus são as seguintes: o significante puro "distorce a con tribuição de Lacan, retirando a psicanálise do campo das ciências para confundi-la com uma filosofia", enquanto que o significante flutuante, "indicando o que fica em excesso à cadeia dos significantes, pondo em jogo a questão do estilo sem desconsiderar que a psicanálise, na primeira contribuição de Lacan, quando ele pode se dizer "freudiano", mantém-se[a psicanálise] como uma ciência conjectural, como uma prática social que valoriza a interpretação do sentido, e se refere sempre ao princípio de alteridade como um princípio básico de sua contribuição." Outra questão, para mim aberta, é a de saber se o significante flutuante ajuda a pensar a problemática do gozo, mencionada, mas não ampliada na obra de Horus, "O sujeito da dúvida e a retórica do inconsciente". Em conversas que mantive com Horus, para mim ficou claro que ele criticava certos excessos da chamada "clínica do Real", que, sob o argumento de que o significante é insuficiente para lidar com o gozo, propôs um tipo de intervenção baseada no gesto do analista, inspirada na mestria do método Zen, para "chegar ao sem sentido numa depuração transformadora a que só falta", dizia ele, "a iluminação do satori". A objeção de Horus referia-se à desconsideração não só da topologia lacaniana do real, simbólico e imaginário, como também da segunda tópica freudiana, do isso, eu e supereu. Objetava que seria um excesso da filosofia positivista considerar a verdade como estando no Real, desprezada a definição lacaniana segundo a qual a verdade tem uma estrutura de ficção. Nesse contexto, a interpretação deixaria de ser um ato simbólico, apagando-se a diferença entre decodificação e decifração, desprezando-se, ainda, o valor da interpretação como um "meio-dizer", buscando "efeitos de ressonância", para além das significações estereotipadas, tal como propunha Lacan.
Um dos pontos altos do diálogo que Horus manteve com a filosofia foi o reconhecimento da importância de Merleau-Ponty para a psicanálise. Horus não deixava de lembrar que o filósofo francês reconheceu a psicanálise e se rendeu ao conceito de inconsciente para aceitar a "desrazão". Propôs o modelo teórico lingüístico para as ciências conjecturais antes que as conseqüências do "Discurso de Roma", e o célebre texto de Lacan "Função e campo da fala e da linguagem" interrogassem a relação entre psicanálise e filosofia. Reconheceu a estrutura diacrítica da linguagem e o princípio da diferença e valorizou a "razão estrutural" em trabalho apresentado no Primeiro Colóquio Internacional de Fenomenologia, intitulado "Sur la phénomenologie du langage", datado de 1960, quando falou da inauguração da lingüística estrutural moderna por Saussure. Merleau-Ponty, segundo Horus, foi dos primeiros a romper com a concepção ingênua de uma continuidade evolutiva da história, associando-se à psicanálise, que inclui o fenômeno da repetição na história individual recursiva, recorrente, não se prendendo ao tempo da consciência.
De Michel Foucault, aliás, um amigo de Horus, ele extrai os ensinamentos relativos à finitude. Influenciado pelo pensamento psicanalítico, Foucault fez a exegese das ciências, reconheceu o valor de verdade parcial do sujeito desejante na sua contingência, a duplicidade dialética entre finitude e infinitude na dimensão do psiquismo, retomando a questão do sujeito. A posição de Horus revela suas raízes n a tradição crítica da filosofia, ao promover uma interseção que junta o imperativo socrático e a razão crítica kantiana. Em Sócrates, recolhe a maiêutica, o partejamento dos conceitos pela via da indagação rigorosa conduzida por um mestre, e lembra que aí está uma "teoria da memória" que associa rememoração à descoberta de um saber. Da razão kantiana, Horus recolhe a valorização do conhecimento reflexivo que aponta limites para o conhecimento, o que permite uma aproximação entre os conceitos de coisa "em si" e do inconsciente.
Da Escola de Frankfurt, Horus valoriza a associação de Marx (o inventor do sintoma, segundo Lacan) e Freud (o inventor do oficio impossível de educar, governar e psicanalisar), na revelação dos "interesses cognitivos" implícitos no fenômeno do conhecimento na "mediação entre a teoria e a prática", segundo Habermas. Horus valoriza a solicitação que se faz ao indivíduo, na oposição inclusiva individual-coletivo, "se não a sair definitivamente de uma alienação secundária, pelo menos a denunciar a falsa consciência e a reconhecer o impossível de uma consciência plena que chegaria ao saber absoluto." Crítico incansável, Horus se opõe ao positivismo, a uma posição reducionista que se limita a valorizar a exatidão no conhecimento, que exige a prova demonstrativa, que se restringe à lógica formal, que nega o fato da significação, que recusa a pluralidade dos sentidos e pretende a extinção do desejo. Assim, ele bate de frente contra a hegemonia do "discurso científico" que, na expressão de Lacan, forclui o sujeito na contemporaneidade.
A razão crítica e a psicanálise podem caminhar juntas na via que Chaim Perelman, o pensador da nova retórica, chama de "lugares preferenciais qualitativos", contra a ditadura da quantidade. Horus nos lembra que a nova retórica, a razão crítica e a psicanálise podem se valer de uma "extrema sensibilidade para tudo o que foi recalcado nessa história do pensamento ocidental." Perelman, no trabalho "Retórica e Filosofia", abre perspectivas para uma lógico do pensamento não formalizável, na contracorrente dos que se excedem nas formalizações matematizantes, como se a linguagem matemática existisse para nos impor um silêncio culpado. As pesquisas desenvolvidas pela Teoria da Argumentação ou Nova Retórica chamam atenção para uma obra de Aristóteles, os "Tópicos", em que a dialética se define como arte da discussão e do confronto de opiniões, como um exercício de preparação para a construção da ciência. A proposta de Horus, de um "confronto criativo" inter-pares no campo da psicanálise, é solidária da concepção de Perelman para um melhor entendimento da estrutura da argumentação não apenas na linguagem corrente, mas também na publicidade, na jurisprudência, nas ciências sociais e na filosofia.
Nas palavras de Perelman: "Como, por quais meios argumentativos, obtém-se uma intensidade suficiente de adesão dos espíritos? O estudo filosófico desse problema foi inteiramente negligenciado pelos modernos... Mas é aos pensadores da Antigüidade greco-romana, ao Aristóteles dos Tópicos e da Retórica, e ao Quintiliano da Instituição Oratória que é preciso volver, se se quer encontrar precursores para nosso modo de encarar o problema da argumentação." Lacan responde a Perelman, não ficou insensível à nova retórica, no seu artigo sobre "A metáfora do sujeito", nos "Escritos", dele divergindo na concepção de metáfora entendida não como analógica, mas a que implica um recalque: foi "a partir das manifestações do inconsciente do qual me ocupo como analista, que cheguei a desenvolver uma teoria dos efeitos do significante onde eu reencontro a retórica." E se Lacan aprecia o discurso matemático é "pelo que ele nada significa", o que nos remete mais uma vez à hiância do inconsciente, a falha estrutural imposta ao sujeito da dúvida.
Assim, "não é por acaso", lembra-nos Horus, "que a própria filosofia começa a valorizar o conceito de um inconsciente incognoscível, o "avesso do sentido manifesto", um sentido virtual - o reprimido como um sentido latente que se refere à metonímia do desejo inconsciente - a ser descoberto pela interpretação psicanalítica como uma prática de significância que se associa à linguagem da poiesis, ao ato criativo como ato simbólico que realiza a "transgressão com sentido" e vem a dar um valor particular à questão do real em oposição às sistematizações ontológicas da metafísica."
E aqui, o texto de Horus atinge um alto valor expressivo. Acostumado com os elevados níveis de abstração que o avanço de sua elaboração sempre apresentava - para incômodo de muitos - foi com surpresa que deparei com uma inusitada "festa da carne". Foi tamanha a mudança no texto que cheguei a lhe dizer que até que enfim o corpo aparecia. Ele sorriu. A proposta é a de um "discurso dionisíaco" numa "estrutura de carnaval". Seu ponto de partida são os achados de Bakhtine, ao analisar o discurso concreto da "escritura" na sua obra "Esthétique de la création verbale". Bakthine afirma que todos os elementos separados da descrição narrativa são "monológicos". Para a descoberta do "plurilógos", a polissemia da palavra que a "lógica poética" realiza integralmente ao percorrer a variância da língua, Horus exalta a proposta de um "discurso que tenha a estrutura de carnaval, isto é, um discurso "dionisíaco" que, no contexto da descoberta, revela o desejo inconsciente metonímico na sua circularidade pulsional e em referência a uma transgressão."
Podemos constatar, assim, a subversão da psicanálise, em oposição às psicoterapias que oferecem a remissão do sintoma, sem questionar sua verdade, e a adaptação social, negando a parcialidade do desejo inconsciente. A transgressão que Horus aí reconhece explicitamente é não só a transgressão das regras do código lingüístico, como também da moral social, pela adoção de uma lógica do sonho que se refere aos processos primários do pensamento. Esse "discurso dionisíaco" não é, no entanto, o "liberou geral", a injunção superegóica apontada por Lacan como um gozar imperativamente a qualquer custo,e também não é concordância com Lacan, quando ele diz que "depressão é covardia"("superegóico demais para o meu gosto", dizia Horus). O discurso dionisíaco é revelador dos limites intransponíveis da subjetividade, lembra-nos a fábula dos porcos-espinhos contada por Schopenhauer, valorizada por Freud, e descrita como relação sexual impossível por Lacan; esse discurso enfatiza a diferença entre sujeito interpretante e Eu fenomênico, diferencia sujeito da enunciação do Eu do enunciado, fala da necessidade e do determinismo, mas também da contingência e do acaso, e reconhece o sujeito, ao mesmo tempo interior e exterior ao seu objeto, como uma função da intersubjetividade, valorizando o terceiro excluído e a lógica ternária do simbólico, o ao menos três do Édipo.
O "discurso dionisíaco" é aquele que nos mostra as aspirações ao impossível, o "amor pelo inapreensível", segundo a expressão de Beaudelaire que Horus gostava de citar como o grande marco da modernidade. É o discurso que nos mostra a função social das utopias e das ideologias do desejo. O discurso dionisíaco não desvela o inconsciente incognoscível, dizia Horus, mas aponta para um universo de significantes que não se reduzem às essências da consciência, às idéias claras e distintas do cartesianismo. O discurso dionisíaco nos indica a diferença entre exatidão e rigor, reconhecida por Husserl e retomada por Lacan. A psicanálise, tal como a fenomenologia, pode ser rigorosa, mas é necessariamente inexata. Esta inexatidão, nas palavras de Horus, "nos remete à ambigüidade e à diversidade dos significados", em busca de uma verdade no discurso - "uma verdade que se dá em uma prática alteritária e que se expressa na realidade psíquica diferenciada da realidade material."
Muito tempo depois da leitura que fiz de "O sujeito da dúvida", em que evoco uma voz, muito mais do que idéias, ainda ecoam nas minhas lembranças o jeito amigo do meu analista, o sujeito lúdico que salvou minha vida com lucidez, delicadeza e liberdade. Me lembro da alegria em que nos reencontramos na cidade de Goiás, onde participamos de uma mesa que discutiu cinema, psicanálise e ecologia. E lá vinha o Horus com mais uma idéia, desta vez ele descobrira um sociólogo português , Boaventura de Sousa Santos, em quem se apoiava para uma nova luta, ainda um bom combate, chamado por ele de "Por uma ecologia dos saberes". Horus apreciou a denúncia do conhecimento científico "que tem sido usado de forma relativamente imprudente. " "Temos muitas conseqüências indesejadas de ações científicas desejadas, descobertas importantes que redundam numa bomba atômica ou num desastre ecológico. Precisamos de outras formas de entender o conhecimento científico que façam dele um conhecimento prudente para uma vida decente", citando o sociólogo.
Como se dissesse "para que tanta seriedade, ó Senhor", ele enfrentou com serenidade a morte, como nunca vi ninguém. Talvez Sócrates, quem sabe. Do heterônimo João Navarro, de suas "Poesias acontecidas", me ficaram uns versos, chamados de "Confissão para amanhã", e me ficou também a impressão de um grande Macunaíma:
"Meu tempo é breve em espaço curto,
por isso serei de bronze
e louco sozinho.
Não amarei os amores que não tive,
Nem o riso colherei de outros olhos
Que não vi além de mim.
Não viverei inquietações que não pertencem
Aos rios e pomares sombreados,
E lindamente emudecidos.
Não terei todos remorsos de minhas culpas,
Nem ninguém dirá aos meus ouvidos
Que sou homem-dever.
Sentarei tranqüilamente no degrau da escada,
Colecionarei selos, consertarei relógios
E farei as tranças da menina loira.
Estarei desperto em todos os definitivos ocasos
E acordarei muito depois da aurora,
Fútil e desmedidamente.
Se tiver um Deus será esculpido em barro,
Portátil e substituível em qualquer
Momento de desespero.
A arte será a música que virá de longe
Para a sutileza do fugaz encontro,
Sem os compassos marcados.
E a ciência, sem pressa, virá de todas
As palavras que arrumarei
No decorrer dos anos.
Assim será, para mim,
Que sempre soube não ser muito,
E posso dizer-me menino fraudulento,
De olhos atravessados, encantado além de mim
Com a poesia e as coisas, que me descobrem
Mais do que posso dizer.