CHISTES EM LACAN
Podemos concordar com Elisabeth Roudinesco, quando afirma no seu Dicionário de Psicanálise, que Freud tinha uma verdadeira paixão por aforismos e anedotas, e que era dotado de um senso de humor corrosivo. Por exemplo, quando assinou sob coação uma declaração em que reconhece ter sido bem tratado pelos funcionários do partido nazista, o que era uma condição para que pudesse escapar das garras do hitlerismo e viajar para a Inglaterra, ele se saiu com essa: "Posso recomendar cordialmente a Gestapo a todos".
Legítimo representante do célebre humor judaico, Freud era bem capaz de rir de si mesmo, como quando escreveu a seu amigo Fliess a frase "Rebeca, tire o vestido, você não está mais noiva", para dar conta de uma importante mudança teórica, o abandono da teoria da sedução, momento em que se sentiu como uma noiva abandonada pelo noivo na véspera do casamento. Roudinesco lembra que Freud aproveitou as histórias judaicas de casamenteiros e pedintes para investigar as fontes do prazer suscitadas pelo chiste, partindo da crônica de Viena e alcançando uma dimensão universal, ao estudar as formas do humor, do cômico e revelando ao mundo a relação entre o chiste e o inconsciente.
Mas, o livro de Freud, O chiste e sua relação com o inconsciente, publicado em 1905, não fez sucesso, vendeu poucos exemplares nas primeiras edições. Até que em l957, com o Seminário sobre As formações sobre o inconsciente, veio a leitura nova de Lacan. O chiste passou a ter o estatuto de um conceito, passou a ser um significante. Já no seu artigo "A instância da letra", de 1957, publicado nos Escritos, o texto de Freud sobre o chiste passa a ter um valor "canônico" na formação dos analistas.
Lacan traduz Witz, o chiste em alemão, por trait d'esprit, dito ou tirada espirituosa. Dedica a abertura e grande parte do Seminário Livro 5 ao chiste famoso, o familionário, para mostrar que a análise freudiana se dá no nível do significante. Indica a superposição dos termos familiar e milionário como da mesma ordem que a condensação na formação de um sonho. Apoiado na lingüística de Jakobson, Lacan sustenta que a condensação é uma metáfora. Adianta que o Witz, como um significante novo, transcende o código do discurso habitual, corrente, violenta o senso comum e introduz uma marca pela qual surge no discurso um traço, um "rasgo" (trait) de verdade que se procura mascarar. A origem do chiste está no livro Imagens de viagem, de Heine, que relata a história de Hirsch-Hyacinth, vendedor de bilhetes de loteria e calista em Hamburgo, e que se vangloria de ter sido tratado "familionariamente" pelo rico barão de Rothschild. Lacan aponta o desejo de Hirsch-Hyacinth na pretensão de ter um milionário na palma da mão, mas que, na verdade, como um servo,um fâmulo, faminto, esfaimado, fames, por celebridade, por fama, numa situação impossível de se objetivar, como a falsa familiaridade, a condescendência com que os ricos tratam os servos, tenta inverter a situação e exprimir-se pelo jogo contorcido, engavetado de palavras, o familionário.
Lacan sustenta que Freud, antes da lingüística, viu a relação entre as leis da linguagem e as do inconsciente, e que para a nova teoria, a teoria freudiana do inconsciente, o Witz desempenhou um papel fundamental. Não menor foi a importância do Witz para a ampliação do conceito de inconsciente freudiano elaborada por Lacan por meio da dimensão alteritária ("O inconsciente é o discurso do Outro") e pela teoria do significante.
Mas, essa importância não se limitou ao aspecto teórico ou técnico. Estendeu-se também na própria pratica de Lacan, aos modos surpreendentes e disruptivos de algumas de suas intervenções, tal como se depreende dos relatos recolhidos por Jean Allouch no seu livro curiosamente intitulado -Alô, Lacan?-É claro que não. Allouch prefere chamar de bons mots (boas falas,boas palavras, falou e disse, etc.) aquilo que já suscitou uma enorme polêmica acerca da tradução do Witz. Roudinesco lembra que o termo alemão foi traduzido pelo norte-americano Brill como Wit, que dá idéia de espirituosidade intelectual. Por sua vez, Strachey propôs uma ampliação que incluísse as noções de blague, brincadeira, farsa, comicidade, como na palavra Joke. Roudinesco chega a ponto de dizer que as diversas traduções refletem uma "luta ideológica entre ingleses e norte-americanos pela apropriação da obra freudiana". Era o espírito das piadinhas americanas e a fidelidade à tradição vienense que estavam em causa. Lacan contrariou mot d'esprit da princesa Marie Bonaparte, e avançou o seu trait d'esprit para destacar a dissociação entre trait, traço, rasgo, como sendo de ordem estritamente significante, bem separado de esprit e suas significações de intelecto, engenho, espírito.
Dessa luta ideológica mencionada por Roudinesco não escapam os próprios franceses, tal como se depreende da leitura do Dicionário de Psicanálise da autora: em 1988, Jean-Bertrand Pontalis, ex-discípulo de Lacan, redigiu uma nota em que se recusou a traduzir Witz por trait d'esprit. Segundo Roudinesco: "Mesmo levando em conta o caráter positivo da contribuição teórica de Lacan, sublinhou, com justa razão, que o Witz tinha no sentido freudiano, uma significação mais ampla e menos conceitual do que a leitura que dele propusera Lacan. Daí a opção de traduzir o livro [de Freud] como Le mot d'esprit et
sa relation à l'inconscient". E continua Roudinesco: em 1989, tradutores da edição das "Obras completas", sob a direção de Jean Laplanche, Pierre Cotet e André Bourguignon retomaram o termo lacaniano numa outra perspectiva, afirmando a existência de uma pretensa "língua freudiana" e de uma disciplina intitulada "freudologia". Esses autores teriam concluído que o Witz não era um chiste (mot d'esprit), mas um rasgo da engenhosidade (trait d'esprit) freudiana. Segundo Roudinesco, trata-se de uma elaboração "meio bizantina". Conclusão da história: prevaleceu a decisão de se traduzir como "Le trait d'esprit" o título do texto de Freud nas "Obras completas" em francês. Só não podemos concordar com Roudinesco quando ela reduz essa verdadeira "guerra" de prestígio a mero bizantinismo, se a autora leva a sério seu próprio argumento de que há uma luta ideológica pela apropriação da obra freudiana. Nós, aqui da América Latina, já aprendemos que a colonização começa na linguagem.
O que é o espírito? Lacan se interroga, e não é à toa que o Seminário 5 sobre as formações do inconsciente tem como uma espécie de subtítulo"As estruturas freudianas do espírito", este ponto enigmático da doutrina que se redobra, por efeito do significante, num campo semântico que inclui variadas significações, como atividade psíquica, engenhosidade, graça, espirituosidade, entre outras. Lacan vai longe, como quando afirma que o Espírito Santo não é mais do que a entrada do significante no mundo. Tal afirmação não teria o valor de uma tirada espirituosa?
Roudinesco lembra ainda que, tal como Freud, e até mais feroz que ele, Lacan é também dotado de humor corrosivo, igualmente amante de trocadilhos, piadas, o que fez dele um mestre do Witz. Seu manejo da técnica do chiste, da tirada espirituosa, é particularmente notável nos casos lembrados por Roudinesco como sendo a "figuração pelo contrário",
a exemplo da frase tornada célebre: "O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer." Lembremos que a idéia da figuração pelo contrário se aparenta com as reviravoltas dialéticas que Lacan descreve no exercício da clínica, quando o analisante passa por revirões, reviramentos da sua posição subjetiva, graças à intervenção do analista. O livro de Allouch está cheio desses exemplos.
Ao abrir o Seminário 5 com o famoso familionário, Lacan pretende situar o chiste no seu esquema denominado grafo do desejo. Para além de demonstrar, o grafo é usado para mostrar, e se trata de mostrar um resumo altamente condensado da teoria analítica. Lacan pede a seus ouvintes que façam a leitura prévia de um dos seus artigos "A instância da letra no inconsciente". Declara que seu ponto de partida é a função do significante no inconsciente, e que, para isso, começar pelo chiste é a melhor entrada no assunto. Apresenta o seu esquema do Witz , mostrando duas linhas vetorizadas que se cruzam, a linha do significante e a linha do discurso corrente. Lembra que o discurso é feito de matéria, tem uma textura, mas requer tempo, só podendo ser entendido quando a frase estiver terminada, pontuada, destacando ai a função nachträglich (só depois) do significante. Lembra que é o jogo fonológico que funda o trocadilho, o jogo de palavras. Na página 18 do Seminário sobre as formações do inconsciente estão os pontos nucleares para o entendimento da estrutura significante do chiste, como o código, a mensagem, o sentido e a verdade.
É no entrejogo entre mensagem e código e do código para a mensagem que funciona a dimensão essencial à qual o Witz nos introduz, adianta Lacan. Uma primeira observação de Lacan sobre o chiste é sua extrema ambigüidade. Lacan está bem ciente de que a apresentação do chiste suscita na platéia um sentimento de depreciação, de leviandade, falta de seriedade, extravagância e capricho. Mas, defende Lacan, não se pensa isso do espírito. O espírito tem um centro de gravidade, a tirada espirituosa, que, por mais contingente, caduca ou criticável, revela ao mesmo tempo um novo ser - um ser de linguagem - e o que se convencionou chamar de presença de espírito de determinado sujeito.
Lembra Lacan que pessoas sérias não se ocupavam do chiste, que só despertava, no início, o interesse de alguns poetas, como Baudelaire. Mas a grande inovação, a ruptura, no estudo do chiste, a diferença de qualidade veio de Freud: a consideração das relações estruturais entre chiste e inconsciente. Segundo Lacan, Freud destacou seu aspecto formal, como na teoria literária, o que possibilitou a formulação da teoria estrutural do significante como tal. Freud parte da técnica verbal e eleva sua análise à técnica do significante.
Foi pela abordagem freudiana que se esclareceu a questão "o que é o espírito?", um esclarecimento pela técnica do significante, o que permitiu a Lacan sustentar que o inconsciente só se entrega quando o olhamos "meio de lado". Isso está o tempo todo no Witz, diz Lacan, é sua natureza, "de lado". Olhamos para o Witz e vemos o que não está ali. Na essência do Witz, diz Lacan, está a dimensão de álibi da verdade: ela designa, e sempre de lado, aquilo que só é visto quando se olha para outro lugar. Freud havia feito um recenseamento das tendências do espírito, lembra Chemama, no seu Dicionário de Psicanálise: há o espírito obsceno, o agressivo, o cínico e o cético. Utilizando-se dos recursos da linguagem, o chiste provoca satisfação, suspende o recalque, dribla a censura, e torna risível o inaceitável. A que se deve a satisfação das tendências do espírito? Ao jogo de palavras, ao prazer lúdico que se experimenta na infância. O que se diz com espírito é aceito com mais facilidade pela censura. Não precisamos manter o recalque, quando ouvimos ou fazemos um chiste: liberamos a energia necessária para manter o recalque, e essa poupança de energia é o que nos dá prazer, resultante da redução das tensões. O chiste trabalha na linha do contra-senso, atacando a certeza do juízo, como no exemplo dos dois judeus que se encontram e se desencontram no significante Cracóvia. O chiste dissimula a agressividade, como nos exemplos recolhidos por Freud entre as historias de casamenteiros em Viena. O sujeito desarma o outro, fazendo-o rir, e nisso estaria a fonte da eficácia da interpretação analítica, o que levou alguns autores a sustentar que o chiste é a interpretação.
Uma zombaria pode visar a determinada pessoa, mas ela só vale como chiste, quando enunciada por um terceiro, que, ao rir, confirma que ela é admissível. O terceiro é uma das fontes da noção de Outro em Lacan.
Freud distinguia humor, cômico e chiste. Os três remetem o homem ao estado infantil. Na infância, dizia Freud, desconhecíamos o cômico, éramos incapazes de espirituosidade e não precisávamos de humor para nos sentirmos felizes na vida.
Lacan se pergunta, no Seminário 5, se o neologismo familionário é mesmo um Witz, ou um lapso, um ato falho, um ato bem-sucedido, uma derrapagem ou uma criação poética. "Não sabemos. Tal vez tudo ao mesmo tempo", responde. Acrescenta que pela "misteriosa" propriedade dos fonemas que se repetem no engavetamento de familiar e milionário, surge algo novo, algo se agita, há um abalo na cadeia significante. No jogo entre código e mensagem no grafo do desejo, há uma nova mensagem (familionário) que se revela incongruente, não aceitável, uma flagrante violação do código no plano do significante.A mensagem se dá num nível da produção significante, a mensagem se diferencia do código, e é sancionada como tirada espirituosa pelo Outro. Lacan sustenta que já estão em Freud tanto a promoção da técnica significante, quando a referencia ao Outro como terceiro.
Freud também diferencia tirada espirituosa e cômico. O cômico se dá na relação dual, enquanto que é preciso haver o Outro como terceiro para que exista o Witz. Segundo Lacan, o Outro pode ser suportado por um indivíduo ou não. O Outro, diz ele, rebate a bola, alinha a mensagem no código como tirada espirituosa, e diz no código: "isto é uma tirada espirituosa". Quando ninguém faz isso, não há Witz, quando ninguém se apercebe disso, quando familionário é um lapso, ele não constitui uma tirada espirituosa. O esquecimento de nome próprio é um lapso, o nome cai "nas profundezas", diz Lacan, mas ambos - tanto o chiste, quanto o lapso - têm em comum a hiância, o buraco que faz com pertençam à estruturação significante do inconsciente, aqui indicada por uma topologia.
Agora, Lacan pode dizer que foi o espírito de Heine quem gerou o familionário, graças à uma investigação histórica sobre a vida do poeta e seus dissabores com um tio rico, que o impediu de casar-se com sua prima justamente porque ele não era um milionário. É hora de Lacan citar um chiste de um paciente seu, um sujeito que disse que vivia maritavelmente com uma mulher com quem depois se casou. Pelo esquema de Freud, a superposição de maritalmente (não casado) e miseravelmente só gerou um chiste porque Lacan o sancionou, no seu lugar de Outro terceiro, o lugar de um ouvinte que escuta. Há um exemplo da mesma ordem, de uma paciente de Freud. Disse ela: "Para que uma mulher interesse aos homens, ela tem que ser bonita, mas, para o homem, basta que ele tenha os cinco membros direitos." É um lapso, diz Lacan, mas se parece com um chiste. Pode ser um chiste, se for sancionado pelo Outro terceiro, mas também pode ser um lapso, ou até mesmo uma asneira, uma ingenuidade lingüística, diz Lacan.
Além da dimensão significante, da referência ao Outro como terceiro, da verdade como algo que se situa no nível do sentido, Lacan se refere também ao objeto como integrantes da constituição do Witz. No exemplo do familionário, o vendedor de bilhetes de loteria e calista invoca a Testemunha universal, Deus, como garante daquilo que afirma como sendo verdadeiro, Deus saberia que esse objeto pretensamente do calista (o meu milionário, Salomon Rothschild) o teria tratado como a um igual, familionariamente. Esse objeto, diz Lacan, vai no sentido do cômico, do absurdo, do nonsense. Esse objeto é derrisório, tal como o da tirada espirituosa do próprio Lacan, ao se referir a um "fat-millionaire", o fátuo-milionário. Esse objeto é chamado de metonímico no grafo de Lacan.
É a figura da metonímia que explicaria o sucesso de tiradas espirituosas que não implicariam a superposição de termos que geraria um significante novo. Estamos nesses casos no plano da combinação, no plano da metonímia, e não simplesmente no plano da substituição, como na metáfora. Já vimos que o familionário é um objeto, um personagem derrisório, um "ser verbal", como define Lacan. Houve quem notasse uma discrepância entre o uso freudiano, que se refere a "familionariamente' e o uso lacaniano, que se refere a "familionário". Lacan responde que a construção de Heine se refere à maneira de ser, enquanto que ele põe a ênfase na maneira de ser. É graças à função da metonímia, condição para a existência da metáfora, que se pode brincar com as significações e reconhecer a separação entre as palavras e as coisas, como quando se diz: eu não disse que você é reacionário, eu disse que você é reacionário. Quando Lacan menciona o exemplo de trinta velas no lugar de trinta navios, isto nada tem a ver com o real, uma vez que dificilmente um navio tem uma vela só. "A metonímia ... consiste na função assumida por um significante S no que ele se relaciona com outro significante na continuidade da cadeia significante. A função atribuída à vela em relação ao navio está numa cadeia significante, e não na referência ao real; está na continuidade dessa cadeia, e não numa substituição. Trata-se, então, da maneira mais clara, de uma transferência de significação ao longo dessa cadeia."
É graças à função metonímica, que se pode falar em chiste metonímico, exemplificado por Lacan ao longo do Seminário 5 (ver a história do "Para trás, cavalinho!, p. 113). É também desta ordem, a meu ver, o conjunto de chistes recolhidos por Jean Allouch nos ditos de Lacan, na sua prática clínica, na apresentação de doentes, na prática da supervisão, quando se constata o efeito desconcertante dessas intervenções. São elas que levantam a questão da interpretação em psicanálise. Autores, como MDMagno, no seu seminário sobre A Música (p.56-57) sustentam que o chiste é que é a verdadeira técnica da interpretação. "O cara (analisante) só não ri porque é dele que se estaria rindo. Ele só vai rir depois." Magno critica os chamados "analistas lacanianos" que achavam que interpretar era fazer trocadilhos. "Não é fazer trocadilho, é desfazer sentido. O que não é a mesma coisa que fazer trocadilho. Fazer trocadilho é acrescentar sentido. Só rimos do chiste quando há condições de ele exibir o não-senso. O chiste é uma coisa seriíssima, pode fazer chorar, também."
Ao fazer distinção entre chiste e sintoma, Magno lembra que é "exatamente aquela entre chiste e metáfora, porque o sintoma é metáfora. O chiste como interpretação. O sintoma como metáfora. Pode-se dizer que a letra é uma metáfora? Metáfora é localização de significante? Então a letra é metáfora".Um dos modos de intervenção do analista, segundo Lacan, seria a pontuação como contraponto ("A instância da letra"). Para Magno, seria "transar com a letra, intervir na letra", a exemplo de Freud quando toma um hieróglifo "e transa as articulações mais amplas desse hieróglifo - e esse contraponto não é senão algo de chistoso", pois, "o contraponto leva ao chiste porque acaba por exibir o não-senso na fundação metafórica. É uma vasta piada... A cada qual escolher se de bom gosto ou de mau gosto."
Essas são apenas algumas palavras que pretendem ter um caráter introdutório sobre a questão do chiste e do seu valor de interpretação em psicanálise. O ponto de partida foi o Seminário 5 sobre "As formações do inconsciente" e as "estruturas freudianas do espírito", de acordo com o ensino de Lacan. Mas não poderíamos deixar de lado o engenho, o espírito criativo de Lacan, na emulação que manteve com Joyce quanto à criação de palavras, de novos significantes. Seu Seminário 23, dedicado ao escritor irlandês, já no título mostra sua inspiração: "O sinthoma". Uma nova concepção de sintoma em psicanálise, algo que pelo savoir-faire do escritor com a linguagem, seu gozo com as palavras, com a letra, o teria levado a escapar da psicose, sem passar por uma psicanálise. Sinthome de Lacan mostra sua verve no trato com a letra, neologismo que inclui a admiração de Joyce por São Tomás de Aquino, abrindo a simultaneidade de significações - sintoma, "sant'homem", santo homem, santidade,entre outras versões dessa homofonia.
E também não poderíamos deixar de lado as palavras de Freud sobre o humor, em 1927-1928,quando ele revisita o texto sobre o chiste e pela primeira vez apresenta o supereu com uma face simpática, " num estado de espírito afável", segundo a observação do editor inglês:
"Como os chistes e o cômico, o humor tem algo de liberador a seu respeito, mas possui também qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam às outras duas maneiras de obter prazer da atividade intelectual. Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego. O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer".
"O humor não é resignado, mas rebelde. Significa não apenas o triunfo do ego, mas também o do princípio do prazer, que pode aqui se afirmar contra a crueldade das circunstâncias".A largueza de vistas permite a Freud não só reconhecer o caráter "patológico", "regressivo" do humor, nas suas características de desvio do sofrimento pela rejeição da realidade e efetivação do princípio do prazer, mas também valorizar a criatividade humana capaz de construir uma "série de métodos" para fugir da compulsão para sofrer, incluindo o humor na série que "começa com a neurose e culmina na loucura, incluindo a intoxicação, a auto-absorção e o êxtase. Graças a essa vinculação, o humor possui uma dignidade que falta completamente, por exemplo, aos chistes, pois estes servem simplesmente para obter uma produção de prazer ou colocar essa produção, que foi obtida, a serviço da agressão".
Depois de dizer que o chiste é uma contribuição feita ao cômico pelo inconsciente, e que o humor é uma contribuição feita ao cômico pelo supereu, e de dizer que o prazer humorístico jamais alcança a intensidade do prazer do cômico e do chiste, Freud apresenta uma face menos severa do supereu. Valoriza a sua mensagem, como se o supereu dissesse: "Olhem! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de criança, digno apenas de que sobre ele se faça uma pilheria!"
E Freud conclui: "Se é realmente o supereu que, no humor, fala essas bondosas palavras de conforto ao ego intimidado, isso nos ensinará que ainda temos muito a aprender sobre a natureza do supereu." Dom raro e precioso, ainda nas palavras de Freud, se o supereu tenta através do humor consolar o eu e protegê-lo do sofrimento, "isso não contradiz sua origem no agente paterno.' Mais uma vez, Freud salva o pai, hoje em declínio em nossa sociedade. Será por isso nossa ausência de humor, que sucumbiu à face severa do supereu que, no dizer de Lacan, hoje comparece com o imperativo do Goza!?
Roberto Mello - psicanalista, membro da Fazenda Freudiana de Goiânia
Goiânia, maio de 2009