O CORPO NA PSICANÁLISE
Lacan percorre uma via, desde Freud, do sintoma ao sinthoma, abrangendo três momentos na teoria que se refletem no modo da direção da clínica psicanalítica.
Sinthoma, segundo Jacques-Alain Miller, no seu Curso de Orientação Lacaniana, é definido como um termo que seria um misto do sintoma, como efeito do significante e da relação do sujeito com o gozo. Neste curso começa traçando a diferença entre sintoma e sinthoma: "No fundo, qual é a diferença entre sinthoma e sintoma? É que precisamente aquilo que, do sintoma, é rebelde ao inconsciente, aquilo que do sintoma representa o sujeito, aquilo que do sintoma não se presta a nenhum efeito de sentido (...)" e sintoma enquanto expressão de um conflito inconsciente. Encaminha essas noções articulando-as ao conceito de letra, enquanto estrutural do sujeito. Toda essa problemática foi desenvolvida por Lacan, no Seminário 23, sobre o Sinthoma, ao trabalhar o Nó Borromeu e acrescentar um quarto elo que enlaça RSI.
Como está relacionado com o corpo, o sinthoma organiza o modo de gozo de cada sujeito.
Mas, retomando a via de Lacan, ele descreve três períodos distintos em que o sintoma está articulado com o corpo e os efeitos do discurso nesse corpo.
Primeiro período - Metáfora
Lacan faz um retorno aos textos freudianos e dá ênfase à sobredeterminação simbólica. O sintoma deriva da noção de inconsciente e este é definido como estruturada como uma linguagem. O sintoma é um significante, uma metáfora - a expressão subjetiva do poder da palavra sobre o corpo.
Segundo período - Gozo
Este período tem início em 1964, período que corresponde à articulação realizada entre o sintoma e a fantasia. Essa vinculação do sintoma com o corpo mediado pela fantasia prevalece na noção do objeto a e sua articulação com o real, isto é, entre sintoma e gozo. Evidenciando a pulsão, a repetição sintomática e a satisfação.
Terceiro Período - Letra
Marcado pela relação do sintoma com a letra, como irredutível. O inconsciente aqui é pensado como um saber cifrado, cujo exercício é o gozo.
Para iniciarmos, faremos um breve retorno ao texto freudiano, O inconsciente, Anexo C, no qual Freud define a unidade da função lingüística da palavra como uma representação complexa de uma combinação de elementos visuais, acústicos e cinestésicos. Nomeia quatro elementos constitutivos da representação-de-palavra: a imagem sonora, a imagem visual das letras, a imagem motora da fala e a imagem motora da escrita.
As representações mentais do objeto ou idéia consciente do objeto, ou seja representação-de-objeto se dividem em representação de palavras (Wortvorstellungen) e representação-da-coisa (Sachvorstellungen). A representação-da-coisa consiste no investimento de cargas nos traços de lembranças mais distantes. Então uma representação (Vorstellung) consciente abrange a representação-de-coisa acrescida da representação palavra correspondente e a representação (Vorstellung) inconsciente é somente a representação-coisa.
O aparelho de linguagem, assim construído por Freud, em que a representação-objeto é formada por signos visuais, táteis, acústicos, cinestésicos, é o que Lacan nomeará, mais tarde, de alíngua.
Lalangue, definida como restos de significantes com os quais o infans entrou em contato antes de ser capaz de entender suas significações, permanece como letras que marcam o corpo da criança.
É através da letra que o desejo consegue ser lido, reconhecido, como nas manifestações do inconsciente: o sintoma, atos falhos, esquecimentos, sonhos, o acesso ao desejo. Num primeiro momento, Lacan define a letra como "uma estrutura essencialmente localizada ao significante "(...) suporte material que o discurso concreto toma emprestado à linguagem", no artigoA Instância da letra no Inconsciente" (Escritos, 1957).
Mas é preciso definir a oposição radical entre a letra e o significante.
A letra é da ordem do Real e o significante, da ordem do Simbólico. Então, o significante é, por oposição à letra, algo representável, signo da representação e por outro lado, lidamos com a relação da letra com a morte. Se entendermos a morte, também como pulsão de morte, esta é imprescindível para que nasça um sujeito. É preciso separar-se, perder algo para que se constitua um "eu".
A relação entre a letra e a morte me lembrou uma primeira entrevista com uma criança de 9 anos, que tem como queixa não saber ler. Ao ser questionada sobre a queixa, fala chorosa "eu não sei as letras, elas não juntam". No relato de sua história, aos 6 anos, idade da alfabetização, presenciou o assassinato da mãe. Outra analisanda de 6 anos, ao ser solicitada a ler uma historinha, ao ver o livro, me diz "Eu não sei ler essa letra, só aquelas que dão a mãozinha" , se referindo a letra de forma e a letra cursiva. Para tanto, temos que pensar a noção de corpo pulsional na sua relação com a dimensão da letra. Não é preciso que ocorra um fato trágico real para que possamos perceber a relação fundamental do sujeito com a letra, basta o acesso às estatísticas escolares, principalmente quando a letra entra como puro significante, como na matemática, para percebermos as dificuldades e os "erros" que as crianças cometem. Introduzir a criança na escrita só é possível porque ela já tem uma escrita no seu corpo.
Lacan dizia que "um ser pode ler a sua marca", o "parlêtre", o ser falante, este ser que por falar, pode ler aquilo que faz marca. Melanie Klein, a partir de sua prática com crianças, diz que atrás dos erros de ortografia, existem fantasmas sobre as letras. Henri Massin escreveu um livro intitulado La lettre et l'image, no qual mostra a história das letras, uma viagem inspirada ao autor pela criação de alfabetos nas formas dos animais, das árvores, das casas, dos corpos. O autor desenvolve um projeto que se chama "As letras-criança" ou "letras-corpo": é solicitado aos alunos que desenhem o abecedário conforme seus significados.
A imagem sempre esteve associada à letra, como nos hieróglifos. É por via da letra que podemos ler, enquanto deciframento, o desejo do sujeito,como já dissemos, nas manifestações inconscientes: sonhos,lapsos, chistes, esquecimentos e sintoma e articular como uma de suas funções é de ser representante do objeto a e que suas inscrições irão ser sempre numa estrutura de borda, nos orifícios. "O inconsciente não traduz, cifra" (Lacan)
Há sempre uma letra que precede a criança, que a tece no desejo dos pais, há um nascimento físico e outro simbólico. Essas crianças que não tem palavras emprestadas do Outro se estruturam no autismo ou na psicose: entre outras conseqüências, há uma ausência de representação do corpo próprio.
Lacan, na Conferencia de Genebra, associa o corpo ao cartucho da escrita sagrada egípcia, e diz que, enquanto tal, o corpo comunica, entrega, o nome próprio. O cartucho, segundo Jean Alouche no livro Letra a letra, tem esse valor das aspas na escrita lógica - enquanto algo fora do campo dessa escrita, os nomes próprios desprovidos de denotação. O nome apreendido enquanto tal traço de escrita, não fonetizado. "O Um do corpo não é senão uma parte disso que o nome próprio necessita para aceder ao valor de escrito" (Jean Alouch).
Para que um sujeito advenha, é necessário que haja um ninho simbólico, uma letra que preceda a criança, marcada pelo desejo dos pais e se isso não ocorre algum distúrbio da ordem da linguagem aparecerá, como no autismo. Nesse enfoque, o autismo estaria situado numa anterioridade ao nascimento da criança. Segundo Bergés e Balbo (A letra, o significante e o objeto, p.57) "... a letra, por sua ausência radical, está na origem de toda demanda, é ao furo desta que viria responder o significante ou é ao furo desta que viria dar borda ao significante". Porque a letra é uma borda. Esse furo é da ordem do irrepresentável, que para Freud não é outro senão a morte, o que gira em torno da pulsão de morte.
Podemos agora formular que o eu - porque deriva de sensações corporais, principalmente aquelas das superfícies do corpo em contato com o mundo - torna-se uma projeção psíquica da superfície corporal.
Há um livro, Filosofia Mestiça, de autoria de Michel Serres, que fala do terceiro incluído. E nas suas primeiras páginas fala do Pierrô lunar. É belíssima a descrição das roupagens de que é revestido um corpo, essa superfície psíquica/corporal. Trata-se da história de um Pierrô que viaja por mundos desconhecidos e as experiências vividas ficam imprimidas na sua pele dando-lhe uma roupagem, assim descrita pelo autor:
Composição descobinada, feita de pedaços, de trapos de todos os tamanhos, mil formas e cores variadas, de idades diversas, de proveniências diferentes, mal alinhavados, justapostos sem harmonia, sem nenhuma atenção às combinações, remendados segundo as circunstâncias, à medida das necessidade, dos acidentes e das contingências,será que mostra uma espécie de mapa-múndi, o mapa das viagens do artista como uma mala constelada de marcas?(p.2)...
Esse corpo libidinal, que se distingue do corpo biológico dos animais por ser inscrito em uma ordem da linguagem, foi denominado como corpo erógeno, marcado pelas zonas erógenas. A zona erógena é definida por Freud como uma parte da pele ou da mucosa em que certos tipos de estimulação provocam uma sensação prazerosa. Mas são certas partes do corpo que são privilegiadas: boca, ânus, genital, por isso esse caráter parcial das pulsões.
As fases da organização da libido (ou energia sexual), oral, anal e fálica propostas por Freud têm de ser pensadas não só como privilegiadoras de zonas erógenas do corpo, mas também com inscrições que se fazem no psiquismo a partir das relações estabelecidas entre a criança e o Outro.
De um lado o corpo fala (efeitos do discurso que afeta o corpo) e por outro, cria a disfunção, da qual o homem pode se queixar. O ato ultrapassa a necessidade.
A imagem mnésica funciona no aparelho psíquico como uma representação antecipada da satisfação ligada ao dinamismo do processo pulsional. É neste sentido que podemos falar de desejo em Freud. O desejo nasce de um reinvestimento psíquico de um traço mnésico de satisfação ligado à identificação pulsional.Então, a demanda é uma expressão do desejo que, para além de satisfação da necessidade, é sempre formulada e endereçada a outrem - é sempre uma demanda de amor.
Há alguém aí? Quando essa demanda primeira materna não comparece, os sujeitos se estruturam no autismo, na psicose. É prestando a atenção e emprestando-se ao sujeito ao escutar seus barulhinhos que a mãe responde ao bebê, antecipando esse "alguém", lhe fazendo demandar, constituindo um "eu" que advirá. A importância fundamental da voz materna, como primeiro objeto organizador, faz o bebê participar de uma economia libidinal materna, espaço nomeado de transitivismo, que constrói o corpo psíquico. A mãe formula a seu filho sobre a sua demanda, que lhe dá significações: "você está com calor? Está com fome? Está molhado? O que o bebê quer?... Quando ele grita assim, é porque está....um desfiladeiro de hipótese de demandas que faz com que o grande Outro da mãe transborde sobre o filho na suposição de que ali habita um sujeito. A mãe endereça ao grande Outro da criança um significante, porque faz uma hipótese de saber na criança. Segundo Bergès e Balbo no livro Jogo de posições da mãe e da criança - Ensaio dobre o transitivismo:
No caso particular do transitivismo, esse processo passa necessariamente pelo corpo, uma vez que este está envolvido em algo experienciado que o afeta de outro modo; diferente do modo como o afetaria um sentimento - o qual pode ser apenas moral. O corpo é aqui esse lugar de receptação através do qual o mundo toma forma e consistência para a criança. Apreende-se que esse acesso ao simbólico, que representa a identificação com a criança ao discurso da mãe, concerne ao corpo, na medida em que ele não é somente corpo imaginário, mas também corpo de linguagem, de significantes e de letras. (p.10)
O que se inscreve no corpo, a partir da intersecção do outro, é que permite que o sujeito saiba quem ele é. Possibilita identificar-se com seu nome próprio.
Nosso corpo se apóia nas bordas e no autismo essa borda não existe, a voz não produz borda no ouvido e conseqüentemente altera esse corpo, mas, como pode acontecer uma escolha tão precoce?
Abordaremos a questão do autismo sob este aspecto: a letra e os desdobramentos sobre o corpo pulsional como resposta a essa precocidade na escolha através do transitivismo, a relação mãe e filho e no meio desse par, uma relação entre a letra e a fala. Para que a mãe possa valorizar o que ela lê no filho é preciso que algo seja inscrito.
No artigo O Inconsciente, Freud, no item VII - identificando o inconsciente, ao descrever as relações dos sistemas Ics/Pcs (Cs), nos aponta o seguinte sobre os casos de esquizofrenia:
... após o processo de recalque, a libido retirada do objeto não mais procura um novo objeto , mas se recolhe para o Eu, ou seja : desiste de investir carga no objeto e restabelece-se um estado de narcisismo primitivo, sem objeto. (Freud, Vol. 2 , Obras psicológicas de S. Freud, Luiz Hans).
Comparecem algumas alterações na fala. A forma de eles se expressarem é "rebuscada" e "floreada" e as frases sofrem uma desorganização específica na sua estrutura, como se estivessem desprovidas de sentido. Não podemos esquecer que para Lacan só podemos falar de diagnóstico de psicose se houver um distúrbio de linguagem."No conteúdo dessas falas, muitas vezes prevalecem referências a uma relação com os órgãos ou com as inervações do corpo" (p.46). Há o exemplo de uma paciente de Tausk, uma moça que após um desentendimento amoroso foi levada à clínica, queixando-se de que "Os olhos dele não estão certos, eles estão alterados, distorcidos, tortos'. Ela mesma esclarece o sentido de sua fala:" não consegue entendê-lo, cada vez ele tem uma aparência diferente, ele é um hipócrita, ele é um distorcedor de olhos, ele torceu e virou os olhos dela, agora é ela quem tem os olhos revirados, distorcidos, não mais dela aqueles olhos, ela agora vê o mundo com outros olhos."
Freud destaca, neste exemplo, a relação com o órgão, substitui todo conteúdo e passa a representar o seu pensamento, concluindo que "A fala esquizofrênica se torna uma linguagem de órgão".Cita um paciente que tem como queixa um afastamento de todos os interesse da vida devido ao mau estado da pele de seu rosto. Segundo Freud, ele afirma ter cravos e buracos profundos no rosto, perceptíveis a qualquer um. A interpretação que Freud dá a esse conteúdo é que o paciente situa o seu complexo de castração na pele. Quando espremia os cravos , aqui realçado como um substituto da masturbação, como algo que espirrava de dentro para fora ,tinha um imenso prazer, mas ao perceber o buraco que esse ato deixava com sentimento de ter arruinado a sua pele para sempre, por "ficar constantemente futucando-a com a mão". A cova que surgia,para Freud, "por sua culpa são os órgãos genitais femininos, a concretização de uma ameaça de castração iniciada pela masturbação(ou uma fantasia que representa essa ameaça). (p.48).
Mas, o que acontece no autismo? Retomando nossa questão, como se dá essa anterioridade na escolha de uma estrutura?
Nesse momento, portanto, é fundamental que a mãe possa sustentar a credibilidade que tem com relação ao próprio saber estereotipado com as mãos, o balançar das mãos, o andar nas pontas dos pés. Tustin (1990) faz uma observação relevante na clínica de autistas com referência ao corpo: as crianças autistas vivenciam seu corpo, no encontro com o outro, como uma ameaça física, uma catástrofe. Donna Willians (1992) uma autista que escreve um livro, 'Nobody, Nowhere" testemunha esse fato ao dizer " Se me tocarem, não existo mais". No mais são crianças que não adoecem, não sentem frio ou calor, ou mesmo dor, que babam.
É essa característica "inteireza" do corpo, corpo fechado, sem corte, sem borda que se apresenta no autismo. Nosso corpo se apóia nas bordas e no autismo essa borda não existe.
Então, podemos ressaltar a relação do autista com a linguagem e o outro, apontando para uma dimensão do corpo e da fala.
Abordaremos respostas de psicanalistas com experiência clínica do autismo na tentativa de explicar a precocidade da estrutura.
Segundo Bergés e Balbo, a letra, por sua ausência radical, está na origem de toda demanda e é ao furo desta que viria responder o significante ou o fazer borda. O significante se apresenta ao apelo dessa demanda. Os autores, no livro Psicose autismo e falha cognitiva, ao relatarem casos de autismos e psicose dizem:
Que a incompetência da mãe para transitivar tem por causa o fato desse corpo nunca ser verdadeiramente recalcado no discurso materno. O saber que supõe em seu filho é um saber do corpo, suas funções, seu funcionamento (...) o corpo torna-se um puro significante no grande Outro. (p.54).
Ela não consegue fazer hipótese de uma demanda no lugar do grande Outro, já que encarna o grande Outro. Mas, é importante ressaltar que essa impossibilidade materna de transitivar, não é porque a mãe provoca o autismo, é a criança que se defende dessa demanda do Outro e torna-se autista, aqui está a precocidade da escolha do sujeito. Porque ao nascer, é preciso que a mãe faça, através dos cuidados de lavar, vestir o bebê, entre outros, a integração desse corpo, o invólucro fantasístico do corpo. O discurso transitivista tem uma função de fazer obstáculo ao corpo como falo imaginário.
As relações do corpo e o transitivismo, segundo Bergés e Balbo no livro Jogo de posições da mãe e da criança - ensaio sobre o transitivismo, o que se coloca em jogo é a competência de experimentar "corporalmente"um afeto doloroso. Quando uma criança vê alguém machucando alguma parte em seu corpo, ela sente dor na mesma parte no seu próprio corpo. O outro da criança a obriga sofrer o que ela não experimentou, em nome e por amor àqueles que a constituíram.O afeto é o que permite à mãe, no transitivismo, não somente cuidar do corpo de seu filho, mas não esquecer que ela também tem um corpo, que se identifica ao seu discurso, reconhecer o corpo do filho. É através do que é experimentado pela mãe de seu próprio corpo que permite à criança lembrar que tem um corpo, essa passagem se dá no campo simbólico. Assim, a criança liberta seu corpo do imaginário para poder inscrevê-lo no simbólico. Se esse discurso transitivista é sem afeto, frio, segundo Bergès e Balbo "o filho pode identificar-se a um discurso frio, em que estaria em questão um corpo de palavras, de representantes de palavras, sem carne: puro corpo de linguagem" (p.89), excluindo assim, o significante da falta, não havendo mais o relançamento característico do transitivismo.
Sabemos da relação de desconhecimento do autista com o corpo, um corpo situado antes do estádio do espelho, já que é a imagem especular que faz corte. Podemos pensar os três tempos do transitivismo a partir daí:
O espanto: a capacidade que a criança tem de se espantar diante de tudo.Para que ocorra o jogo de posições, a mãe do bebê surpreendendo-se com um choro. Colocando-se no lugar de quem não sabe ela deposita algum saber no bebê, perguntando-lhe: " O que você quer?" Ela nega que o bebê não tenha clareza acerca de que formato tem a sede, o sono, a dor. Ela nega a negação da criança. Eis o que os autores chamam de dupla negação, que é constitutivo, assim como o é a função do desconhecimento materno.
A hipótese. Ela formula uma suposição, uma antecipação a partir do seu próprio saber.Por isso, o que está em jogo no transitivismo é a afetação, nas palavras de Bergès e Balbo (2002). Ela formula hipótese e golpeia o bebê, dizendo-lhe que faz tempo que mamou e que está com fome, a mãe "lhe dá fome".
A ultrapassagem: Bergès e Balbo se referem ao movimento seguinte ao golpe de força, no qual o sujeito constituído/constituinte abre espaço para que a criança se aproprie do que lhe foi emprestado, testemunhando a subjetivação do outro. Por exemplo, após ter sido alimentada, a criança começa a choramingar e empurrar a mamadeira, e a mãe diz à criança: Você não quer comer mais? Então está na hora de dormir.
Então, o transitivismo é um ato, um golpe de força que ordena e dá forma ao que era antes pura carne, dá sentido ao que era puro ruído. É um "coup de force", um golpe de vivência que vai na contramão do traumático, mas não está destituído de uma certa violência, mas é ordenador.´
Outra psicanalista, Marie-Christine Laznik, que trabalha com autismos e numa clínica voltada para bebês, dá ênfase à voz, como o primeiro objeto da pulsão oral. Cita pesquisas realizadas por Benedicte de Boyssom-Bardies que relatam que o bebê identifica a voz da mãe antes de acalmar qualquer necessidade.
Mesmo levando em conta a elaboração freudiana clássica do funcionamento pulsional sobre a primeira experiência de satisfação de necessidades vitais do organismo e o caráter alucinatório dessa primeira experiência que está escrita nos traços mnêmicos, é no que de acústico existe nesses traços e nos modos prosódicos da palavra materna que devem ser tomados como primeiros objetos da pulsão oral. Ao mudar a ênfase da alucinação de um seio, como primeiro objeto oral para a voz materna, Laznik problematiza a tese freudiana e lacaniana, dizendo:
... que o bebê de Freud - como eu representava para mim - estava sendo seriamente reconsiderado. Mas o bebê de Lacan também carecia de remanejamento (...) Lacan falou muito do desejo do Outro, mas não dispunha de uma clínica de bebês que lhe possibilitasse articular suas hipóteses no plano fenomenológico (Talvez ousar emancipar a experiência pulsional da satisfação da necessidade fosse um passo de ruptura com Freud que ele nunca deu). (Estilos da clínica, p.80).
Esse é só um início de caminhos já percorridos por psicanalistas renomados em atendimento de criança, que me fazem pensar sobre esta clínica e a cada leitura crítica abrir outros rumos para essa prática que me surpreende a cada dia nos escritos ou dizeres das crianças, normais ou autistas, por exemplo, quando uma criança de 6 anos faz um desenho de três crianças em desenvolvimento, desde o nascimento até os 16 anos e me diz : -"Você acredita que até um ano, a mãe não sabia o sexo do bebê? Eu lhe pergunto: -"Mas como? Ela não cuidava dele?Não lhe dava banho? Ele responde: - "Não é isso. Eu não estou falando do real (apontando para os genitais) do corpo. É de outra coisa!".
Toda a questão da psicanálise reside aí, não importa a estrutura.